A falta de incentivo e a resistência dos jovens estancianos


Ao longo da história, a imagem da juventude esteve atrelada a imaturidade e subserviência familiar. É a partir da segunda metade do século XX, que esse contexto tem transformações consideráveis. Movida por grandes mudanças, entre os anos 70 e 80, a juventude mostra sua voz e ganha espaço dentro da sociedade, redefinindo estilos de vida, formas de atuação política, e defendendo ideais como amor livre, autonomia social, independência econômica e principalmente revolução cultural.
    Evitando um comparativo entre a juventude estanciana de hoje com a geração passada, mas, atentos ao fato de estarmos vivendo uma nova configuração do campo de possibilidades das expressões juvenis, podemos observar a atuação da juventude em diversas vertentes da sociedade, como: partidos políticos, grupos religiosos, esportivos, voluntariado e grupos socioculturais, que inventam e reinventam estilos e formas de expressões que dialoguem diretamente com a sociedade.
    A atual geração, também é marcada pela descentralização da vida social em diversos aspectos: por meio de novas expressões de identidade, reivindicações das minorias por ações afirmativas e etc. Todos esses fatos são marcados por uma fluidez das estruturas sociais, revivendo de certa forma uma antropofagia ( se alimentando do passado e produzindo algo novo no presente).A globalização, a transformação política e social, ascensão da classe média, o boom das redes sociais foram alguns pontos fundamentais para essa liquidez.
    Quando ouvimos relatos das pessoas que viveram as noitadas estancianas dos anos 80, elas sempre expressam saudades das danceterias existentes, o Clube Cruzeiro com suas matinês aos domingos e dos encontros na praça da catedral, na extinta Orlinha (conjunto de quiosques que serviam alimentos e bebidas, onde artistas locais apresentavam seus trabalhos). E, principalmente, o encantador São João de rua, com soltura de fogos, forró pé de serra, quadrilhas, batucadas, samba de coco, rituais que são herança dos negros escravizados que passaram por nossa cidade.
    Com raízes no passado, mas como consumidores de bens culturais, os jovens de hoje se expressam de diferentes formas, como também criam suas próprias expressões, apresentando seus valores, transformando a realidade vigente e construindo a história no presente, de olho no futuro. Sem uma ação efetiva do poder público, de forma independente, mas sem muita visibilidade devido a falta de estrutura e recursos, alguns jovens se reúnem em grupos religiosos, artísticos e sociais desenvolvendo atividades nas periferias e regiões centralizadas através da música, poesia, esporte e teatro. Grupos como Soma mais periferia, o qual carrega um histórico bonito de construções culturais, Sarau Além da ponte, Sarau do Barco de fogo, Coletivo Cores e Valores, Culto dos Jovens das igrejas, Batalha de rima, Cultura de rua, Social Revive, grupos de dança, quadrilhas juninas, entre outros, vêm fomentando a importância cultural como objeto de transformação, sem esquecer a centenária Lira Carlos Gomes, que desempenha ações diretas e efetivas com adolescentes e jovens estancianos.
No último dia 11 de Agosto, Estância assistiu a uma enxurrada de ricas apresentações que deixou muitos dos seus munícipes bestificados com tamanho profissionalismo dos artistas que se apresentaram no show de talentos organizado pelo IFS com apoio da prefeitura, assim como também assistiram a necessidade de se investir de forma concreta e efetiva na manutenção e continuidade dessas ações desenvolvidas, já que o município não oferece equipamentos de cultura e lazer pontuais, apenas eventuais e concentrados em regiões centralizadas, não tendo o mesmo alcance efetivo nos jovens dos bairros mais afastados.
    Construir plataformas de intervenções socioculturais estimula a criatividade, potencializa novos processos de transformações sociais, aumenta a valorização da autonomia, da diversidade, do respeito ao indivíduo dentro da coletividade, diminui a violência suprindo carências no que tange aos direitos de todos os cidadãos.
    Usando como referência a antropóloga Regina Novaes, que é especialista no tema juventude, e diz que: “Estudar a juventude é conhecer a sociedade, e poder pensar, inclusive, em seus rumos.”
Transformar os jovens em atores sociais é entender a ligação das demandas de acesso ao mundo do trabalho, produção cultural e uma condição de vida segura, fazendo assim a diferença na cena pública, pra que eles consigam pensar em suas vulnerabilidades e potencialidades, encarando-as como prática social cotidiana para a construção de um mundo social mais justo e colaborativo.


Daiene Sacramento

 

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