Dois pesos, uma medida: Humanidade!


“Todas as vidas têm o mesmo valor!”

 

Essa é uma tese na qual Marielle acreditava. Entretanto, não dá para dizer o mesmo das instituições do poder público brasileiro, historicamente utilizadas para manter uma estrutura socioeconômica de privilégios para apenas 1% da população, em detrimento da pobreza e do abandono dos outros 99%.

A elite política vê nos casos de Marielle e Caroline uma oportunidade ímpar para comparar, não só a precificação das vidas, mas também os significados das mortes e suas consequências, tangenciando um fator cruel da nossa realidade social: a Política de Segurança Pública brasileira está pouco preocupada com as vidas das Franco’s e das Pletsch’s.

Ambas as execuções, tecnicamente, constituem homicídios qualificados (art. 121, §2º, vários incisos, do Código Penal). A diferença central são as motivações. Enquanto a execução de Marielle foi fruto de uma emboscada operacional planejada, a execução de Caroline foi impessoal e circunstancial pelo mero fato de estar armada. Os assassinos de Marielle a queriam morta desde antes da operação. Os assassinos de Caroline decidiram matá-la no local do assalto para assegurar a execução de outro crime. Isso não retira em nada a barbaridade das execuções, mas expõe distinções cruciais dos casos.

Sobra-nos então analisarmos as repercussões nas mídias e nas ruas, do Brasil e do mundo. Por que não houve a mesma comoção?

A resposta está em dois fatores: (1) a própria banalização das vidas e das mortes no Brasil; e (2) a representatividade política nacional e internacional de Marielle. A sociedade brasileira não tem como se organizar e fazer mobilizações de massa a cada uma das 60.000 mortes violentas no país ao ano (aproximadamente, 160 mortes por dia!). Por outro lado, a representatividade política de Marielle (eleita com mais de 46 mil votos) organizava minimamente setores sociais importantes de lutas históricas e de manifestações públicas em defesa de favelados, negros, jovens, mulheres; ou seja, a militância política de Marielle organizava lutas inerentes ao cotidiano da maioria dos brasileiros e dos povos de diversos países.

Não existe contradição entre os dois assassinatos. Há apenas diferenças políticas.

A convivência politicamente organizada na sociedade pressupõe que não nos agrediremos e não nos mataremos na próxima e inevitável divergência. Essa é uma regra básica que distingue o trato democrático do império da força. E a morte de Marielle desafia essa premissa básica da nossa frágil democracia, pondo em alerta máximo os movimentos, os partidos e as organizações públicas e privadas que dela não abrem mão. O ambiente democrático é o único capaz de comportar o convívio harmônico com o mínimo de garantia de dignidade para as pessoas.

A história brasileira é repleta de Marielle’s, assim como de Pletsch’s, a diferença é que aquelas costumam ser eliminadas em períodos sensíveis da transição política, seguidos de recrudescimento atroz. Esta barbaridade ganha enorme amplitude quando operada pelas próprias instituições do Poder Público, desvirtuando, assim, totalmente as finalidades de sua existência.

Marielle, “em 2009, começou a coordenar a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, presidida por mim [Marcelo Freixo, Deputado Estadual do RJ]. Assim, ampliamos a agenda da comissão, incluindo na pauta a assistência a familiares de policiais assassinados, algo que até então não era realizado” (confira o artigo completo em https://www.psol50.org.br/marcelo-freixo-ela-e-uma-voz-de-2013/). A defesa da dignidade das pessoas é uma marca da história dela. Se opor a essa luta, infelizmente, é a marca histórica de quadrilhões políticos e milícias brasileiras.

Você, cidadão e cidadã de bem, não precisa ecoar esse tipo de coisa, pois o ódio se agarra como doença nos corações desiludidos e, por vezes, nossas palavras encontram hospedeiros.

 

Diogo Souza

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