Fundamentalismo, farsa e opressão.


A escalada neofascista brasileira revela seus pilares e desnuda os falsos profetas

 

Em épocas de transição política os fatores reais de poder lutam e se articulam para ocupar os espaços políticos que se avizinham. Sim! Há setores políticos, econômicos, sociais, jurídicos, religiosos, filosóficos etc. que, praticamente, não dormem tentando identificar, ou produzir, um momento oportuno para conquistar parcela do poder político, por vezes mediante meios legais, por outras, não.

O atual cenário político de instabilidade, ódio, resistência e transição, tem raízes em 2013, nas Jornadas de Junho, quando, a partir do aumento da Tarifa dos Transportes Públicos, parcela importante da juventude revolucionária brasileira foi às ruas para denunciar a inoperância generalizada das instituições políticas e governamentais, bem como a corrupção e as contradições do sistema. Compreender esse movimento é fundamental para perceber o desespero que tem levado gente boa a se iludir com respostas retóricas para problemas de magnitude histórica, no Brasil e no mundo.

O desvio da finalidade das instituições públicas era claro naquele momento e, enquanto o povo sucumbia, o Brasil se preparava para a Copa das Confederações e para a Copa do Mundo 2014.

A revolta popular passou a mirar a política e os partidos políticos sem exceções e isso, infelizmente, representou um exemplo a ser seguido para muitos expectadores, que colocaram as soluções políticas no fosso da imprestabilidade. É preciso ter muito cuidado com os exemplos dados pelas massas nas ruas, pois eles podem significar símbolos importantes de uma latente transição política. E esse hiato representativo na política abriu uma brecha para os autoproclamados salvadores da pátria, uma vez que “as instituições não nos representariam” e “os políticos e os partidos também não”.

Apesar de o escárnio institucional brasileiro ter gerado sentimentos generalizados de antipatia à politica e ao partidarismo, eles não se converteram em sentimento anti-Estado. Dessa forma, a lição que ficou para muita gente que assistiu às Jornadas de Junho pela TV foi a de que era preciso algo totalmente diferente, ainda que dentro da democracia possível do nosso país. Perceber isso é importante para demarcar um perfil de massas com o qual políticos, movimentos sociais, organizações sindicais e partidos, dispostos a retomarem suas representatividades, precisariam dialogar. Iniciava-se ali uma onda revolucionária disposta a atuar nos limites do Estado possível. Isso feriu gravemente o radicalismo de esquerda e as concepções anarquistas.

Deflagrada a Operação Lava Jato em 2014, o quadro de descrença e desespero segue em escala crescente até os dias atuais. Nesse ínterim acontece o “Impeachment contra a corrupção”, mas seus resultados frustram ainda mais os brasileiros, na medida em que são obrigados a assistir à manutenção da corrupção e dos corruptores em ação plena, bem como a notória fragilidade do sistema político, a subserviência do sistema jurídico, a implantação de uma agenda econômica anti-povo e a venda escancarada das riquezas nacionais.

No ápice desse processo de inconformidade e desespero, parcela importante desse contingente popular passa, então, a entender a necessidade de modificar o falido sistema atual baseando-se na negação da política, e, assim, as falsas percepções da realidade e a identificação com elementos teóricos do uso da força suprem o vácuo.

Por consequência, o público apoiador do neofascismo brasileiro se dividiu em dois grupos: (1) daqueles que estão sendo enganados pelos falsos profetas, pelos falsos moralistas e pela farsa da “guerra contra a corrupção”; e (2) daqueles que verdadeira e explicitamente se identificam com o discurso de ódio, estes sim, neofascistas tarimbados por excelência. O grupo “(1)” tem salvação; o grupo “(2)” corresponde a uma parcela com a qual temos de aprender a conviver, combatendo sua retórica repetitiva à exaustão.

 

A questão política que merece foco é, ainda que perante um setor popular minoritário desesperado e ávido por mudanças, como o discurso neofascista reacendeu sua centelha logo no Brasil, recém-herdeiro das atrocidades da Ditadura Militar?

 

Que o sistema político-econômico brasileiro reprime a sociedade, tolhendo-lhe até mesmo o piso vital mínimo da dignidade, até aí nenhuma novidade, em face do seu processo histórico escravocrata e genocida. O episódio inquietante, porém, é ver parcela da sociedade requisitando esse tratamento repressor como política de estado para si e para outros, desta vez, formalizando o pleito em candidaturas, leis e costumes religiosos, aparentemente dentro dos limites democráticos possíveis no Brasil. A extrema direita percebeu um dos importantes recados das Jornadas de Junho.

 

A mobilização das massas é o pêndulo da democracia, sobretudo quando surge de modo autônomo, à revelia da grade programática das emissoras de TV e das redes sociais, infladas de contas robóticas difusoras de notícias falsas (“fake news”). Quando o povo pede mudanças de modo independente, como em 2013, os demais fatores reais de poder precisam se articular rapidamente para dar uma resposta capaz de modificar o formato político da vida comunitária, garantindo o desenvolvimento humano e as funções do Estado Democrático.

Entre 2013 e 2016, essas articulações, entretanto, conduziram um golpista ao poder, financiado pelo alto empresariado e apoiado pelo Exército, que reprimiu barbaramente o manifesto pacífico “Ocupa Brasília”, em maio de 2017, por exigir “FORA TEMER!” e “DIRETAS JÁ!”. A partir dali, os Decretos do Planalto sobre promoções, remanejamento de pessoal, criação de unidades, Operações de Garantia da Lei e da Ordem (chamadas carinhosamente de OGLO’s) e, finalmente, Intervenção Militar com orçamento bilionário, ganhariam importância crucial. Colocar o Exército no tabuleiro político parece ter sido a fatura militar do Golpe, alargando o ambiente da repressão em perspectiva nacional.

Mirando as Eleições 2018, os setores democráticos tentam conquistá-la no voto, mas é possível perceber táticas eleitorais contrárias. Enquanto o Exército demonstra sua força militar – mobilizado, recebendo financiamento bilionário para suas ações de engajamento, coagindo o STF a fazer presos políticos e se dispondo a agir a qualquer momento –; os agentes do caos insuflam as massas para fazê-las irem às ruas pedir Intervenção Militar em todo o território. As Eleições 2018 poderão corresponder a mais uma frustração da população brasileira, caso os apoiadores do neofascismo superem os apoiadores do Estado Democrático, pois a mobilização das massas continua sendo o guia da nossa história.

Esse atual perfil das abordagens teóricas e empíricas do neofascismo brasileiro apresenta 03 marcar principais: (1) Fundamentalismo; (2) Farsa; e (3) Opressão.

O Fundamentalismo serve para cooptar quem dispõe da convicção absoluta de estar defendendo os valores cristãos, ainda que suas ações, curiosamente, correspondam a crimes de ódio e ofensas diretas às leituras sagradas. Um exemplo marcante da história Brasileira foi a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, faltando apenas 10 dias para o Golpe Militar de 1964, que destruiu famílias inteiras, instituiu no país um sistema macabro de tortura e eliminação sumária de pessoas e eliminou liberdades civis, políticas e culturais. Quinze anos depois, as religiões cristãs reconhecem que aquela Marcha serviu de impulso ideológico da Ditadura Militar e se reúnem para combatê-la através do Projeto Brasil: Nunca Mais.

A farsa é o elemento capaz de conduzir pessoas a acreditarem em uma mentira em razão da sua repetição ou do desconhecimento das condições objetivas dos fatos. Exemplo interessante é a atual campanha do pré-candidato Jair Bolsonaro que, mesmo recebendo Auxílio-Moradia tendo imóvel próprio, é tido por parte de seus apoiadores como “o único político que combaterá a corrupção”. Além disso, ignoram que Bolsonaro fez parte do partido de Paulo Maluf, o Partido Progressista (PP), por 11 anos, sem nunca ter feito qualquer denúncia contra Maluf, histórico criminoso brasileiro condenado por lavagem de dinheiro e procurado pela Interpol.

A opressão é o elemento agregador para quem se identifica com a possibilidade de subjugar outra pessoa, valendo-se da própria força para submeter outro ser humano a condições indesejáveis de vida e morte. Os discursos e as ações opressores contra minorias se encaixam bem nesse elemento, que encontra aplicação em exemplos concretos como o crime de racismo praticado por Bolsonaro contra a comunidade quilombola, associando negros a cavalos. A execução política de Marielle e os tiros na caravana de Lula também se alocam por aqui.

A opressão pode ainda se constituir em discriminação feita pelos órgãos do próprio Poder Público, como é o caso do homofóbico projeto de lei de Dionísio Neto (REDE/SE), vereador do Município de Estância/SE, que impede a discussão sobre questões de sexualidade e de gênero nas escolas municipais, contrariando assim a liberdade constitucional do aprendizado e o pluralismo de ideias e concepções pedagógicas, necessários em um ambiente escolar democrático (o projeto provavelmente será vetado por inconstitucionalidade).

Perceber os elementos nem sempre claros do neofascismo brasileiro, contudo, é menos importante do que combater sua irradiação na consciência coletiva das massas. Quem defende o Estado Democrático – como eu – precisa denunciar a farsa que o discurso do ódio representa. Os problemas sociais, políticos, econômicos, culturais e jurídicos do nosso país só poderão ser resolvidos em ambiente democrático, com políticas públicas e eliminação das desigualdades sociais e privilégios.

 

O combate à farsa do discurso neofascista precisa, portanto, mostrar as contradições dos ditados populistas, falsos e moralistas, sobretudo quando bradados por falsos cristãos, como adverte o próprio Papa Francisco. É preciso apontar com clareza as mentiras da “guerra contra a corrupção”, difundidas aos gritos por quem na prática se aproveita dos privilégios, se alia a corruptos, desumaniza o próximo, dilapida o patrimônio nacional e enriquece ilicitamente.

A dificuldade dessas tarefas reside justamente na sedução eloquente dos discursos. Entretanto, a cada pessoa que abre o olho para essas mentiras cativantes, os falsos profetas entram em colapso, porque sua capacidade de influência perde credibilidade. Assim, os fundamentalistas ainda relutantes vão deixando transparecer que defendem a linha do ódio por pura opção e identidade própria, e não por conta de subterfúgios confortadores do ego como a bravata da “defesa dos verdadeiros valores cristãos” e a falsa “guerra contra a corrupção”, tal como ocorre com o público bolsonarista.

O Golpe de 1964 desenhou um quadro pertinente ao cenário atual. De um lado, a “ameaça comunista”, que já havia sido simulada pelo Capitão Olímpio Mourão Filho em 1937, com o fajuto Plano Cohen; do outro lado, militares, parlamentares, fundamentalistas e empresas (bancos privados e montadoras de carro, por exemplo). O tempo é um professor antiquado, porque insiste em repetir coincidências e consequências dos fatos históricos.

E aqui estamos nós vivenciando um novo ciclo de Golpe de Estado em curso, contra aquela mesma “ameaça comunista” somada à falsa guerra contra a corrupção, operado por amplos setores da economia, do Parlamento Nacional, do Judiciário e, também, do antigo Exército, cada um com sua função e momento-alto singular no enredo do Golpe de 2016.

Ante o ódio, a farsa e a democracia, o pêndulo das ruas ditará, como sempre, os rumos da nossa história. É chegada a hora de escolhermos de que lado estamos.

 

Diogo Souza.

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