O apartheid social e as raízes do ódio


“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”.
(Nelson Mandela)

 

Surgido na África, o termo ‘apartheid’ que significa “separação”, é um regime de segregação racial que foi muito presente na África do Sul de 1948 a 1994, onde uma minoria branca cerceava os direitos da maioria negra durante os sucessivos governos do Partido Nacional.

Apesar de o termo ter tido o objetivo exclusivo de segregação racial, atualmente pode ser utilizado para exemplificar as mais variadas formas de separação existentes. Utilizei o termo “apartheid social” para provocar o debate acerca da divisão de classes que o Brasil enfrenta.

Inicialmente essa separação de classe social se deu no sul e sudeste do país, onde pessoas de poder aquisitivo mais arrojado pediam nas redes sociais a separação dos estados do norte e nordeste, por acreditarem que os problemas existentes no país foram gerados pelo crescimento econômico e social nestas duas regiões.

Está mais que evidente que o objetivo das forças dominantes, leia-se, como dominantes, o grande capital, especialmente o capital estrangeiro, é fragilizar a economia brasileira que vinha ascendendo e foi interrompida por um golpe, hoje, mais evidente do que nunca.

O atual governo têm feito apenas lambanças e maldades, desde venda do patrimônio nacional até a retirada de direitos da classe trabalhadora. Diferentemente dos governos Lula e Dilma que governava para todos; o governo Temer governa apenas para o patronato e as elites.

O interessante é que uma classe média antes feroz e paneleira, que havia ascendido economicamente, hoje, silenciosamente desce um degrau e afoga-se no poço da vergonha. Daí surgem às raízes do ódio… Os coros de “Fora Dilma, Fora Lula, Fora PT”, são mais por seletividade que por posicionamento político, são mais por manipulação midiática, que por projeto de país. Parece incomodar o fato de que pobres e ricos possam compartilhar os mesmos espaços, comer da mesma comida, viajar lado a lado, cursar as mesmas universidades. Esse incomodo, gerado por uma melhor distribuição de renda e aceleração do consumo, fez ricos odiarem ainda mais os pobres.

Muito preocupante, também, é o ódio e a descrença na política e nos seus agentes, acirrando ainda mais a luta de classes no Brasil, onde a esperança foi substituída pelo ódio generalizado. Ricos odeiam pobres, brancos odeiam negros, heterossexuais odeiam homossexuais, evangélicos odeiam os povos de matrizes africanas, quem é de direita odeia quem é de esquerda e vice-versa, lógico que há raras exceções e existem pessoas que conseguem conviver harmonicamente com “pessoas”, não importando classe social, cor, orientação sexual, crença religiosa e nem ideologia política.

O que mais me impressiona é a inexistência de conteúdo histórico na mente de algumas pessoas. Somos um país plural e miscigenado, juntos somos mais fortes e enfrentamos melhor as adversidades; quem não se lembra da enchente no Espírito Santo em 2013, onde o Nordeste ajudou com a doação de milhares de toneladas de alimentos, assim como nordeste recebeu ajuda do Sul, Sudeste e Centro-Oeste? Não podemos nos unir somente em Copas do Mundo. Deixemos o ódio de lado e vamos começar a observar o que está acontecendo no Brasil. Vamos resistir!

É preciso cautela, antes de apoiar, movimentos extremistas seja de direita ou de esquerda. Extremismos só causam guerra e dor, mesmo quando necessários. Os assustadores índices de violência reflete a fúria cidadã nas ruas, onde “justiceiros”, armados ou não, espancam e matam sem temor. Existe atualmente uma pequena “onda” no Brasil de apoio a ideias ultraconservadoras e eleitoreiras, que acreditam que armar a sociedade solucionará o problema da violência, com o discurso retrógrado que o cidadão de bem está desprotegido e o vagabundo está armado. Daí as perguntas: como uma polícia que atira pra depois verificar vai identificar quem é bandido ou não, se todos estão armados? Como uma sociedade frágil educacionalmente vai lidar com isso? Como seriam os estádios de futebol nos clássicos: Corinthians x Palmeiras, Flamengo X Vasco, dentre tantos outros? Como seriam as discussões nos bares? As peladas de fim de semana? As demissões do trabalho?

Certamente o brasileiro não está preparado psicológica e culturalmente para andar armado… Em tempos de separação, ódio e guerra, só nos resta suplicar pela paz.

 

Cláudio Hiroshy

Poeta, compositor, editor e redator do portal Entre Notícias

Deixe uma resposta