Novembro passou, mas o combate ao racismo continua urgente e necessário


Como sabemos, novembro é o mês da consciência negra, marcado principalmente pelo fatídico dia 20 em homenagem ao líder quilombola Zumbi dos Palmares, assassinado nesta data no ano de 1695. A implantação dessa data e referência é fruto da luta histórica do movimento negro brasileiro, em contraponto ao dia 13 de maio, dia em que denunciamos a falsa abolição.

Um país que escravizou parte de seu próprio povo, por mais de 3 séculos, a partir de uma lógica fundamentada na inferiorização étnica e racial, sobre aspectos culturais, geográficos e biológicos: legitimando a dominação pela cor da pele, falando de forma simplista. Estruturando desse modo a pirâmide social, com a elite branca no topo e a ultra exploração da mão de obra e controle dos corpos negros na base do motor econômico.

O sistema racial e racista produziu consequências e efeitos que até hoje são sentidos de forma implacável pela nossa população, em especial os mais pobres, que vivem do trabalho e moradores das periferias, herdeiros da desigualdade sócio racial, dos crimes contra humanidade cometidos, das atrocidades e toda forma de violências. Por isso a importância da conquista de um mês dedicado a consciência negra, a presença e o valor do nosso povo, da nossa ancestralidade, e principalmente da denúncia da continuação dos crimes da escravidão, pela continuidade de suas consequências, sem qualquer reparação histórica.

O mês se encerra, mas a luta contra o racismo não!

O momento que o nosso país atravessa, reforça ainda mais a importância de enfrentarmos o racismo no Brasil. O desmonte provocado pela extrema direita liderada pelo nazifascista Bolsonaro, aprofundou ainda mais o abismo social e as desigualdades no país. A fome, o desemprego, atingem em cheio as famílias mais humildes.

Desse modo, a eleição de Lula representa um ponto de inflexão importante na história, apontando qual caminho queremos percorrer, o de aprofundar o racismo ou de enfrentá-lo. Não há caminho do meio ou neutralidade para essa triste condição histórica do povo brasileiro.

Direito ao futuro

Nesse momento, o desafio Antirracista passa pela erradicação da fome e da miséria, geração de emprego e renda, fortalecimento das políticas públicas, com ações afirmativas inclusivas, investimentos massivos no SUS e na educação pública, desde as creches ao ensino superior, com pesquisas científicas e em tecnologias, reestruturar os direitos trabalhistas e previdenciários urge, além da valorização real do salário mínimo.

É garantir o direito a vida, enfrentando a política da morte, frente ao ímpeto armamentista que se apossou do estado brasileiro, num país onde a violência massacra em especial a juventude negra e pobre. Como se violência fosse política de segurança pública…

É compreender que todo ser humano tem direito a ter direitos, o que muitas vezes são negados na prática. Além da luta pelo acesso a água potável, a moradia, mobilidade urbana, pela liberdade religiosa, na defesa dos povos originários, indígenas e quilombolas, são tarefas indispensáveis para a luta Antirracista.

Valores humanitários

O fortalecimento de valores humanitários como a solidariedade, empatia, respeito a diversidade, o amor ao próximo, também será tarefa fundamental para o próximo período. Construirmos através desse novo pacto civilizatório, um lugar melhor para se viver, com justiça, paz e dignidade, que possamos olhar para nós mesmos sabemos quem somos, de onde viemos e para onde queremos ir. Isso requer coragem de enfrentar o entulho da escravidão e da ditadura, para fortalecer a democracia e fazer ela chegar nas periferias.

Para finalizar o artigo, deixo aqui trecho de uma música de Natiruts chamada Palmares 1999:

“A cultura e o folclore são meus
Mas os livros foi você quem escreveu
Quem garante que Palmares se entregou?
Quem garante que Zumbi você matou?
Perseguidos sem direitos nem escolas
Como podiam registrar as suas glórias?
Nossa memória foi contada por você
E é julgada verdadeira como a própria lei
Por isso temos registrados em toda história
Uma mísera parte de nossas vitórias
É por isso que não temos sopa na colher
E sim anjinhos pra dizer que o lado mau é o candomblé”

Somos um povo que mesmo sendo de maioria negra, tivemos que criar uma lei para obrigar o ensino da nossa própria história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas e universidades do país, isso nos mostra o tamanho dos nossos desafios e a centralidade dessa importante pauta política.

Viva Zumbi
Viva Dandara
Marielle Presente, hoje e sempre!

 

Por Bira Palmarino

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