1984 e o Brasil contemporâneo: ecos de uma distopia no presente
“A linguagem política destina-se a fazer com que a mentira soe como verdade e o crime se torne respeitável, bem como a imprimir ao vento uma aparência de solidez.”(George Orwell)
A literatura tem o poder quase profético de denunciar o horror antes mesmo que ele se materialize com nomes e sobrenomes. Quando George Orwell publicou 1984, sua intenção era caricaturar o totalitarismo soviético de Stalin. Entretanto, décadas depois, as páginas amareladas da obra parecem descrever, com uma precisão cirúrgica, a ascensão do bolsonarismo no Brasil e a arquitetura de ódio construída nas redes sociais. A leitura de 1984, permanece como uma experiência perturbadora e, ao mesmo tempo, reveladora. Trata-se de uma distopia clássica que expõe os mecanismos de controle de uma sociedade totalitária governada pelo “Partido” e vigiada incessantemente pela figura onipresente do “Grande Irmão”, o romance transcende seu tempo e continua a oferecer lentes interpretativas para compreender fenômenos políticos contemporâneos.
No universo de 1984, o ódio não é apenas incentivado — ele é institucionalizado. Eventos como os “Dois Minutos de Ódio” funcionam como válvulas de escape emocional cuidadosamente manipuladas pelo Estado, direcionando a fúria coletiva contra inimigos previamente definidos. Esse mecanismo revela uma estratégia central do poder: transformar emoções em ferramentas de controle social. Ao observar o cenário político atual, especialmente no Brasil recente, é possível identificar práticas que dialogam com essa lógica, sobretudo na instrumentalização do ressentimento, da desinformação e da polarização extrema.
A polarização político-eleitoral no Brasil atingiu níveis alarmantes nos últimos anos, criando um ambiente de disputa permanente em que adversários políticos deixam de ser vistos como opositores legítimos e passam a ser tratados como inimigos a serem eliminados simbolicamente. Esse cenário reforça a lógica binária do “nós contra eles”, que empobrece o debate público e inviabiliza consensos mínimos necessários à democracia. Assim como em 1984, onde o Partido precisa manter a sociedade em constante estado de tensão e conflito, a polarização contemporânea também se alimenta da criação contínua de antagonismos, muitas vezes estimulados por discursos inflamados e estratégias de comunicação que priorizam o engajamento pelo conflito em detrimento da verdade.
A disseminação de discursos de ódio — seja contra mulheres, pessoas LGBTQIA+, negros ou nordestinos — encontra terreno fértil nas redes sociais. O fenômeno do ciberstalking e outras formas de violência digital evidenciam como o ambiente virtual pode se tornar um espaço de perseguição sistemática, semelhante, em certa medida, à vigilância constante das “teletelas” descritas por Orwell. Nessas plataformas, a desinformação circula com velocidade alarmante, muitas vezes orientada por interesses políticos que visam consolidar narrativas e manipular percepções.
Estudos acadêmicos reforçam a gravidade desse cenário. Pesquisas conduzidas por grupos universitários, como o da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), apontaram um crescimento exponencial — da ordem de 821% — no discurso de ódio contra nordestinos durante o período eleitoral de 2022. Foram cerca de 282 milhões de postagens xenofóbicas em apenas seis meses, concentradas majoritariamente nas regiões Sul e Sudeste.
Esse fenômeno revela a face excludente de um projeto político que, enquanto inflama a base com pautas morais, sustenta no Congresso uma agenda elitista. É a política que defende a manutenção da escala 6×1 e resiste à taxação de grandes fortunas, provando que, para a extrema-direita, o “capital” sempre terá precedência sobre o bem-estar do trabalhador.
Esse dado não apenas evidencia a intensidade da polarização política, mas também revela como determinados grupos são transformados em alvos preferenciais de campanhas de deslegitimação e violência simbólica.
Outro aspecto central de 1984 é a construção de uma realidade paralela. No romance, o “Partido” controla a verdade por meio da manipulação constante da informação — quem domina o passado, domina o presente. No Brasil contemporâneo, a proliferação de fake news cumpre função semelhante, criando narrativas alternativas que distorcem fatos e fragilizam o debate público. Nesse contexto, instituições democráticas, como o Supremo Tribunal Federal, tornam-se alvos frequentes de ataques, muitas vezes baseados em informações distorcidas ou completamente falsas.
Talvez o paralelo mais bizarro entre a Oceania de Orwell e o Brasil atual seja o desprezo pela realidade factual. Em 1984, o Partido podia decretar que 2 + 2 = 5. Além disso, Orwell nos alerta para o perigo da ignorância cultivada. Em sua distopia, crenças absurdas são aceitas como verdades incontestáveis, desde que legitimadas pelo poder. Essa crítica ressoa em fenômenos atuais, como a adesão a teorias conspiratórias — a exemplo do terraplanismo — e outras manifestações de negacionismo que desafiam o conhecimento científico e o bom senso, como pedidos de intervenção alienígena e misticismos políticos. Basta lembrarmos da Covid-19, onde 700 mil pessoas morreram, enquanto o ex-presidente Bolsonaro dizia que era uma “gripezinha”, ou quando, em 8 de janeiro de 2023, seus apoiadores tentaram um Golpe de Estado, ao invadirem e destruírem as sedes dos Três Poderes.
A análise política também se impõe. O funcionamento das instituições, as disputas no Congresso Nacional e os interesses que permeiam decisões governamentais revelam tensões estruturais que impactam diretamente a vida da população. Episódios como o embate protagonizado por Cid Gomes na Câmara dos Deputados em 2015, ao denunciar práticas de chantagem política, ilustram como o jogo de poder pode comprometer avanços sociais e reforçar desigualdades. A época, Cid Gomes, como Ministro da Educação, disse que o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha e mais 400 deputados eram “achacadores”, que se aproveitavam da fragilidade do governo Dilma. Hoje, o presidente Lula, enfrenta situação semelhante com o congresso mais conservador da história, que faz jogo duplo e que agora quer votar a dosimetria para tentar salvar o presidiário Bolsonaro.
Diante desse cenário, a leitura de 1984 se torna não apenas relevante, mas necessária. Orwell não escreveu apenas sobre o passado ou sobre um regime específico; escreveu sobre a condição humana diante do poder absoluto, sobre os perigos da manipulação e sobre a fragilidade da verdade em contextos autoritários.
Mais do que nunca, é urgente investir, ainda mais, em educação crítica, acesso à informação de qualidade e formação cidadã. Como bem lembrava Leonel Brizola, “caro mesmo é a ignorância”. E, à luz de Orwell, podemos acrescentar: perigosa também.
Por Cláudio Hiroshy

