62 Anos do Golpe de 1964: A Arte como Trincheira da Memória

“A memória é o primeiro passo para a justiça; a arte é o veículo que transporta essa memória através das gerações.”
Por Cláudio Hiroshy
Neste 31 de março de 2026, o Brasil marca os 62 anos do Golpe Militar de 1964. Mais do que uma efeméride histórica, a data convida à reflexão sobre as feridas que ainda buscam cicatrização e o papel fundamental da cultura na preservação da democracia. Enquanto o autoritarismo tentava impor o silêncio, a arte brasileira — da música ao cinema contemporâneo — erguia-se como uma ferramenta de denúncia e resistência.
Lançada em um dos períodos mais sombrios da ditadura, a canção “Cálice”, composta por Chico Buarque e Gilberto Gil em 1973, é o símbolo máximo da luta contra a censura. O título é um brilhante jogo de palavras: ao mesmo tempo que remete ao objeto religioso e ao sacrifício de Cristo (“Pai, afasta de mim este cálice”), a sonoridade fonética evoca o imperativo “Cale-se”.
A música foi proibida de ser cantada integralmente em sua estreia no festival Phono 73, com os microfones dos artistas sendo desligados. Versos como “Como beber dessa bebida amarga? / Tragar a dor, engolir a labuta?” descreviam a asfixia social e a violência institucionalizada que o regime tentava esconder sob o manto do “milagre econômico”.
Décadas depois, o cinema brasileiro continua a escavar os escombros de 1964 para garantir que o “nunca mais” seja uma prática ativa. Dois filmes recentes exemplificam essa missão: “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, inspirado no livro de Marcelo Rubens Paiva, o filme narra a luta de Eunice Paiva após o desaparecimento de seu marido, o ex-deputado Rubens Paiva, torturado e morto pelo regime. Diferente de obras que focam apenas na tortura física, Salles foca no vazio jurídico e emocional deixado pelo Estado. O filme humaniza a estatística dos “desaparecidos políticos”, transformando números em rostos, memórias e dor familiar; Já “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, é situado no final da década de 70, o filme traz uma perspectiva mais urbana e paranoica do controle estatal. Através da jornada de um homem que se muda para o Recife sob falsa identidade, o longa explora a banalidade do mal e como o aparato de inteligência do governo infiltrava-se no cotidiano do cidadão comum. A obra serve para lembrar que a ditadura não foi apenas um evento político de Brasília, mas uma atmosfera de medo que alterou a arquitetura social do país.
A relação entre o golpe de 1964 e obras como “Cálice” ou os filmes de Salles e Mendonça Filho demonstra que a arte é o antídoto para o esquecimento. Regimes ditatoriais dependem do apagamento da história para sobreviver.
Ao completar 62 anos desse marco divisório, a cultura cumpre sua função mais nobre: impedir que a “bebida amarga” do autoritarismo seja servida novamente, garantindo que o grito de “Cale-se” nunca mais consiga abafar a voz de uma nação.
