A Miragem do Fim: a liquidez global e o embate entre civilização e extermínio


“A civilização não é algo que se impõe por bombardeio, mas algo que se preserva pela compreensão de que a cultura do outro é o espelho da nossa própria humanidade.”
Por Cláudio Hiroshy

Vivemos atualmente sob o signo da incerteza. A escalada sem precedentes entre os Estados Unidos e o Irã colocou o mundo em um estado de vigília constante. O ultimato recente de Donald Trump, que condiciona a sobrevivência do que chamou de uma “civilização inteira” à abertura imediata do Estreito de Ormuz, não é apenas um movimento geopolítico; é o ápice da “Modernidade Líquida” descrita por Zygmunt Bauman.

O Estreito de Ormuz é a artéria jugular da economia global, por onde flui cerca de 25% do petróleo mundial. O bloqueio iraniano, em resposta às sanções e pressões militares, levou o governo americano a uma retórica apocalíptica. Ao ameaçar “eliminar” o regime e, por extensão, as infraestruturas que sustentam a vida civil iraniana, Trump rompe com os protocolos diplomáticos tradicionais, transformando a guerra em um espetáculo de consumo imediato e volátil.

Entretanto, é preciso observar que essa retórica incendiária muitas vezes mascara a essência de um estrategista do blefe. Para muitos analistas, Trump opera sob a “Arte da Negociação” levada ao extremo geopolítico: ele utiliza a ameaça de destruição total não como um plano de execução iminente, mas como uma ferramenta de pressão para forçar concessões impossíveis. No teatro da modernidade líquida, o rugido de Trump costuma ser mais alto que seu ataque; ele é um jogador que aposta na imprevisibilidade para desestabilizar o oponente, recuando para acordos pragmáticos e transacionais assim que obtém uma vitória simbólica que possa vender ao seu eleitorado. A ameaça de extermínio, portanto, pode ser menos uma convicção ideológica e mais uma manobra de mercado.

Zygmunt Bauman argumentava que vivemos tempos em que nada é feito para durar. Essa liquidez reflete-se na fragilidade das instituições internacionais (ONU, tribunais de Haia), que assistem, impotentes, a ameaças de genocídio proferidas por Trump nas redes sociais.

A Guerra Rússia-Ucrânia é um conflito de atrito que se arrasta, drenando recursos europeus. Na crise do Oriente Médio o Irã atua como peça central em um tabuleiro que envolve Israel e milícias regionais e as tensões no Indo-Pacífico carregam a sombra de um conflito entre China e Taiwan que ameaça a hegemonia tecnológica ocidental. Nesse cenário, a “Paz” não é um estado sólido, mas um intervalo cada vez mais curto entre ondas de violência.

Para compreendermos a gravidade da ameaça de “exterminar uma civilização”, devemos recorrer ao pensamento de Franz Boas, o pai da antropologia moderna. Boas refutou o determinismo biológico e o evolucionismo social que colocava o Ocidente como o ápice da humanidade. Para Boas, cada cultura (incluindo a persa) possui uma trajetória única e um valor intrínseco.

Ao ameaçar o Irã, o discurso político ignora a alteridade. A tentativa de “aniquilar uma civilização” é, na visão boasiana, uma agressão à própria história da humanidade, tratando culturas complexas como obstáculos descartáveis para o fluxo de capital (o petróleo).

O Brasil, embora geograficamente distante do Golfo Pérsico, sente os impactos de forma direta e profunda. A alta do petróleo em Ormuz inflaciona o combustível no interior de Sergipe ou no porto de Santos, provando que na modernidade líquida, as fronteiras são porosas.

Para a Formação Identitária, Gilberto Freyre, influenciado diretamente por Boas, descreveu o Brasil em Casa-Grande & Senzala como uma “psicologia plástica”, formada pela miscigenação e pelo encontro de culturas (europeia, indígena e africana).

Freyre via no Brasil uma capacidade de síntese cultural que se opõe ao desejo de exclusão e extermínio visto no conflito EUA-Irã. No entanto, a instabilidade global ameaça a estabilidade dessa construção social. Se o mundo caminha para um modelo de “nós contra eles”, a democracia racial — ainda que mítica em muitos aspectos — e o equilíbrio diplomático brasileiro são postos à prova. A formação do Brasil, baseada no contato e na convivência de opostos, sofre o risco de ser contaminada pela polarização líquida que prefere o aniquilamento do “outro” à negociação.

O momento atual exige mais do que estratégia militar; exige a solidez ética que a modernidade líquida parece ter dissolvido. Se a ameaça de exterminar uma civilização se concretizar, não será apenas o Irã que morrerá, mas a própria ideia de uma comunidade global humana.

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