A vitória da esperança: Lula trava o neofascismo e começa a reerguer a democracia global
“A democracia vai muito além do voto… não existe democracia verdadeira sem liberdades fundamentais, respeito às regras do jogo e limites ao exercício do poder.” (Norberto Bobbio)
Por Cláudio Hiroshy
A Força Popular que Derrotou a Extrema-Direita no Brasil e no Mundo
A história das civilizações é marcada por momentos de inflexão em que a escolha entre o autoritarismo e a soberania popular decide o destino de nações e continentes. A eleição do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva representou precisamente um desses divisores de águas históricos: um marco decisivo não apenas para a reconstrução do Brasil, mas para o combate ao fascismo, ao neofascismo e à extrema-direita no Ocidente e no mundo.
Em uma era empurrada pelas sombras do bolsonarismo, do trumpismo e do avanço de pautas reacionárias em escala global, o retorno de Lula ao Poder Executivo recolocou a maior democracia da América Latina no caminho da inclusão, reafirmando o valor da participação popular e consolidando o brasileiro como, indubitavelmente, o maior estadista popular vivo da atualidade.
Para compreender a profundidade teórica e prática da vitória de Lula, é fundamental resgatar as origens da própria ideia de democracia. Na Grécia Antiga, Clístenes, chamado de “o pai da democracia ateniense”, promoveu as reformas do século VI a.C. que reestruturaram a pólis. Ao romper com as oligarquias tradicionais e reorganizar os cidadãos por critérios territoriais e não de linhagem, Clístenes inaugurou a isonomia (igualdade perante a lei) e a isegoria (igualdade no direito de palavra). O poder deixava de ser privilégio dos nobres para pertencer ao povo reunido na Eclésia.
Séculos mais tarde, Jean-Jacques Rousseau refinaria essa premissa na modernidade ao conceituar a vontade geral em O Contrato Social. Para Rousseau, a verdadeira soberania reside na coletividade inalienável e indivisível. A legitimidade do poder político surge quando o governo busca o bem comum, e não a perpetuação das elites ou a violência dos tiranos.
A trajetória política de Lula traduz essa ponte secular entre a teoria e a práxis. Vindo dos rincões do nordeste em um pau de arara diretamente para a base da pirâmide social no sudeste do Brasil e das lutas operárias do ABC paulista, ele reincorporou os despossuídos ao debate público da mesma forma que Clístenes abriu as portas da pólis ao cidadão comum. Lula dá voz à vontade geral rousseauniana ao transformar as demandas das maiorias historicamente marginalizadas na própria razão de Estado.
A consolidação desse processo democrático contemporâneo passa incontornavelmente pelo pensamento do jusfilósofo italiano Norberto Bobbio. Em obras fundamentais como Direita e Esquerda e O Futuro da Democracia, Bobbio nos ensina que o critério distintivo da esquerda é a busca incessante pela igualdade e a defesa rigorosa dos direitos fundamentais contra o arbítrio autoritário. Para Bobbio, a democracia é o “governo do poder público em público”, incompatível com as práticas golpistas, a desinformação sistemática e o ódio institucionalizado do fascismo.
No Brasil, essa leitura ganha contornos concretos através do pensamento de Florestan Fernandes. Em A Integração do Negro na Sociedade de Classes e em suas análises sobre o capitalismo dependente, o sociólogo brasileiro demonstrou como as elites oligárquicas mantêm uma “democracia restrita”, perpetuando a exclusão social e racial para preservar seus privilégios. Florestan defendia que a verdadeira democracia só se concretizaria pela radicalização da participação popular e pelo protagonismo das classes trabalhadoras.
A vitória eleitoral de Lula representa a consagração prática desse arcabouço. Ao derrotar a articulação reacionária nas urnas e resgatar a institucionalidade republicana, o Brasil deu corpo às lições de Bobbio e Florestan: a democracia se defende com mais igualdade, com soberania popular e com a inclusão definitiva dos trabalhadores no centro das decisões políticas, a exemplo do fim da escala 6 x 1. Essa concretização da vontade geral nas urnas não ocorreu no abstrato; ela exigiu o engajamento direto das forças vivas da sociedade civil contra o projeto autoritário. Três segmentos revelaram-se verdadeiras muralhas na defesa da soberania popular:
- O Nordeste como trincheira democrática: A região nordestina assumiu o papel histórico de coração pulsante da resistência antifascista. Respondendo com altivez ao preconceito e à xenofobia das elites, o povo nordestino reconheceu nas políticas públicas do projeto popular a transformação concreta de suas vidas, da transposição do Rio São Francisco ao acesso universal à saúde, à educação, à cultura e bens de consumo. O Nordeste não apenas deu a vitória a Lula, mas ensinou ao mundo o valor da memória política e do voto consciente.
- A sabedoria dos idosos e a memória histórica: As gerações mais velhas trouxeram para o pleito o peso de quem vivenciou os tempos sombrios da ditadura militar brasileira e a conquista a duras penas da Constituição de 1988. Em um momento de risco iminente de retrocesso às trevas autoritárias, a população idosa compareceu em massa às urnas, enxergando em Lula a garantia da dignidade da aposentadoria, do cuidado com a saúde pública na valorização do SUS e no fortalecimento do Farmácia Popular; e da preservação dos direitos sociais conquistados a custo de muitas lutas.
- A juventude aguerrida na linha de frente: Se o Nordeste foi o alicerce e os idosos foram a memória, a juventude brasileira foi o motor da campanha. Diante do avanço do discurso de ódio e do retrocesso ambiental e cultural, jovens por todo o país organizaram mutirões, lideraram campanhas de alistamento eleitoral, dominaram as redes digitais e ocuparam as ruas. Essa juventude aguerrida provou que a política não é espaço de apatia, mas de transformação, renovando o ardor da luta democrática.
O papel decisivo do eleitorado nordestino ganha contornos ainda mais heroicos quando analisado diante dos obstáculos sem precedentes erguidos no pleito. A vitória da soberania popular na região não ocorreu em um ambiente neutro, mas em meio a uma verdadeira guerra assimétrica marcada pelo uso predatório da máquina pública, a exemplo da retirada de transportes para que os pobres não fossem votar e pela proliferação de ecossistemas digitais de desinformação.
A superação desse cenário pelo povo nordestino manifestou-se em duas frentes fundamentais:
- O eleitorado do Nordeste enfrentou a tentativa de cooptação econômica e ações ostensivas dirigidas a dificultar o exercício do voto. A mobilização popular e a solidariedade comunitária garantiram que o direito democrático de votar fosse exercido, transformando tentativas de intimidação em combustível para o comparecimento massivo às urnas.
- A máquina de fake news que buscou espalhar o pânico moral e acusações infundadas colidiu frontalmente com a memória viva do povo nordestino. A percepção concreta das transformações sociais vivenciadas em anos anteriores funcionou como um escudo natural contra a manipulação digital, provando que a vivência histórica e a consciência de classe prevalecem sobre narrativas forjadas.
Ao vencer o abuso de poder e o terrorismo psicológico das redes, o Nordeste brasileiro reafirmou a tese rousseauniana de que a soberania do povo, quando consciente e organizada, é irredutível a pressões autoritárias.
A dimensão da eleição de Lula extrapola as fronteiras nacionais. O bolsonarismo não foi um fenômeno isolado, mas parte da internacional ultradireitista alinhada ao trumpismo nos Estados Unidos e a movimentos neofascistas espalhados pela Europa e América Latina. Essas forças utilizam o ataque à ciência, a devastação ambiental, o preconceito e o aparelhamento das instituições como métodos de poder.
Dessa forma, a vitória de Lula:
- Detém a expansão neofascista no Sul Global: Demonstra que a vontade popular organizada é capaz de vencer a máquina de desinformação e o uso da máquina pública.
- Projeta a liderança internacional do Brasil: A presença de Lula nos fóruns globais reacende o protagonismo do país na defesa do meio ambiente, no combate à fome e na busca por uma ordem multipolar mais justa.
- Serve de esperança para as democracias: Oferece um modelo de resistência e governabilidade focado na justiça social e na distribuição de renda.
Lula consolida-se hoje como a principal liderança popular do planeta por conseguir traduzir grandes conceitos teóricos em pão na mesa, mais universidades para a juventude, saúde para quem precisa, acesso à cultura e dignidade para a população. Sua força no cenário internacional reacende a esperança de que o fascismo pode e deve ser derrotado através do voto, da consciência de classe e do fortalecimento incondicional da democracia.
