(A)gosto das artes

Apesar do aparente desconforto coletivo com o modorrento mês de agosto, muitas datas simbólicas e importantes se resguardam nele. Destaco o dia Nacional das Artes, 12 de agosto; dia Nacional do Ator, 19 de agosto; dia Nacional do Artista, 24 de agosto; e o dia Internacional da Dança, 29 de agosto. Particularmente, na última quinta-feira (dia nacional do artista) não senti vontade de comemorar. Ainda assim, busquei no caderno de rascunho a página em branco, e desejei escrever como forma de validar a minha posição artística. Na ausência do verso, reforcei a certeza de que, o artista é, quase sempre, o seu próprio carrasco: a sensação de não-lugar, a autocrítica excessiva, a constante dúvida, a baixa autoestima. Porém, esses sentimentos não acompanham o artista por querer, mas por cultura, pela exigência do belo, do perfeito, do produto dentro do prazo.
Todos os dias, acordamos certos de nossas necessidades imediatas, nesse sentido, a arte ocupa um lugar subalterno: “é necessário, mas nem tanto”, “dá pra viver sem”, será mesmo? Sem ir muito longe, pensemos o mundo sem arte: o corpo sem ritmo, o carro sem som, a parede sem cor, a blusa sem estampa, a fofoca sem o exagero, a comida pálida e sem tempero. Chega a ser inimaginável, não? É aí que está a chave, a arte é tão antiga, tão diária e constante, que só falamos que podemos viver sem ela porque nunca estivemos na ausência dela. E sem ausência, não sabemos da dor da falta. Há aqui, talvez um problema discursivo, entre a categorização e elitização da arte e a arte em si. Certamente, é por esse motivo que, julgamos não precisar da poesia, por não sabermos que para ninar uma criança ou cantarolar despretensiosamente, precisamos do exercício poético.
Foi só quando cresci que percebi a minha dificuldade com linhas retas, sempre falo demais antes de chegar ao ponto. Mas como poderia qualquer um de nós, falar de artistas antes de pontuar a necessidade da arte? Afinal, se a arte é subalterna, o artista é o subalterno do lugar subalterno – a menos que seja burguês, nesse caso, ser artista não é indolência é genialidade. Nesse ponto do texto, quero pensar puramente sobre o sujeito artista, principalmente sobre aqueles que, assim como eu, produzem arte no estado de Sergipe. Aqueles que ficam entre o terror do desemprego ou as jornadas duplas em outras funções, só para ter a possibilidade de produzir a sua arte. Aqueles que não têm em suas cidades espaços adequados para ensaios e exposições; aqueles que não têm o tempo do seu processo criativo respeitado e fazem arte de favor por medo de desagradar.
Nada aqui é discurso sem dor. Mas, o artista da minha terra migra, o artista da minha terra desiste, o artista da minha terra tem medo que os filhos sejam artistas, o artista da minha terra é perseguido quando protesta, o artista da minha terra briga por histórias antigas porque foi tolhido do seu direito de criar e conquistar novas narrativas, o artista de minha terra envelhece esquecido e sem garantias. Chegando aqui, sinto a necessidade de dizer: esse texto não tem público-alvo, tampouco, é um discurso que nasce em mim, Euler Lopes já o fez e faz. Na verdade, esse bolo na garganta é mais velho do qualquer um de nós. Mas, ainda assim, continuaremos reforçando que, Arte é labor, e não convite inesperado. Arte é fruto de um processo criativo trabalhoso e engenhoso. Sem mais, respeitem e enxerguem os artistas.
Thalita Síntique
