Ajudar Lula a governar o país deveria ser tarefa histórica para o PSOL e qualquer lutador social brasileiro


Quando se fala em partido geralmente a ideia que se tem diante da política tradicional é de meramente uma entidade com funcionamento cartorial, que só serve como legenda pra disputar eleição, que sempre comandados por senhores ricos brancos e de sobrenomes influentes na política tradicional. Mas nem tudo é assim e existe partidos com vida interna, democracia, divergências e de diferentes visões, na esquerda essa é uma tradição importante para preservação desse importante instrumento de organização e luta popular e disputa de poder, que é um partido político.

Nessa semana a direção nacional do “meu” partido, o PSOL, irá se reunir para discutir se vai fazer parte do próximo governo de Lula ou se vai tomar posição de “independência”, ou seja, de não participar do governo e poder com isso estar na oposição (povoada de extremistas e bolsonaristas) quando achar necessário ou conveniente. Essa reunião está agendada para o dia 17 desse mês e esse debate ganhou notoriedade pública a partir dos posicionamentos da deputada federal Sâmia Bonfim, da ala que defende o PSOL longe do governo Lula, e do outro lado o deputado federal Guilherme Boulos, o mais votado da esquerda no país, que é do campo que defende que “sim”, o PSOL deve participar do governo Lula, sobretudo por conta do momento que o Brasil atravessa, justamente devido a essa polarização com a extrema direita. E eu vim aqui dizer que concordo e muito com Boulos! É sobre isso que vamos discorrer a seguir nesse artigo. Espero que seja proveitosa a leitura, e lembrando que o partido não tem dono, então, todas as grandes decisões provocam um intenso debate interno e a democracia interna partidária é importante, porém um erro de decisão pode ser devastador.

Ajustar bem o retrovisor para seguir em frente com segurança no percurso

Transpondo o enunciado desse subtítulo do automobilismo para a filosofia do dia a dia, podemos dizer que a história é fundamental para compreensão do presente, projeção e planejamento para o futuro. Consenso. Então, eu gostaria de fazer aqui uma breve retrospectiva de alguns momentos decisivos da democracia e da esquerda brasileira no último período, em especial os últimos 10 anos, onde muita coisa aconteceu e as decisões acertadas no PSOL na conjuntura, pôde levar o partido ao patamar de relevância que hoje se encontra, que teria sido bem diferente caso os rumos fossem outros, refém, por exemplo, de interesses pequenos individuais, do oportunismo da autoconstrução em detrimento a grande política e a coletividade…

Os últimos 10 anos da vida democrática do Brasil foram sem dúvida nenhuma angustiantes, desde a tsunami conservadora, com a agenda de Eduardo Cunha no Congresso e as manifestações engolidas pelo discurso anticorrupção, que na verdade sempre foi anti-politica, e do patriotismo deturpado e negacionista das teorias conspiratórias malucas, tendo como ápice as famigeradas Jornadas de Junho em 2013 – de lá pavimentando o caminho que levou o nazifascista Bolsonaro a presidência, retirando Lula da disputa, o mantendo ilegalmente em cativeiro por quase dois anos.

A perseguição jurídica, a farsa do golpe que tirou Dilma em 2016, momento aliás em que o PSOL atravessou um duro impasse interno, havendo inclusive quem chegou a flertar com o chamado “lavajatismo”, movimento liderado por Sérgio Moro e Dallagnol, mas que acabou vencendo internamente no PSOL a posição que se confirmou correta com o tempo, conduzindo o partido corretamente do lado certo da história: contra o golpismo do impeachment e a prisão de Lula.

Diferente do que ocorreu com o PSTU da minha conterrânea Vera Lúcia, por exemplo, que por uma decisão equivocada viu o seu partido praticamente implodir. Com boa parte de sua militância vindo parar no PSOL. Aliás, lamentavelmente eu cheguei até a presenciar madames e mauricinhos acampados na porta da FIESP, idolatrando um pato, vestindo camisetas da CBF, fazendo churrasco, tomando champanhe e entregando os panfletos do PSTU, recebi em mãos e foi espantoso, ao mesmo tempo que fiquei aliviado, pois naquele momento meu partido não havia tomado rumos tão desastrosos assim, ao ponto de causar tamanha desproporção e confusão.

Quando a direção acerta, o partido cresce: surge o PSOL Sem Medo

A condução correta aproximou o PSOL do MTST, acompanhei de perto essa construção, participando juntos de muitas grandes lutas e um árduo trabalho de base nos bairros e cidades. A aposta na construção da Frente Povo Sem Medo proporcionou o surgimento naquele momento do “PSOL Sem Medo”, como campo interno que viabilizou as candidaturas de Boulos, principal liderança nacional desse importante movimento social, o levando ao segundo turno na disputa em São Paulo capital em 2020, consequentemente.

E mais recentemente, o PSOL também acertou muito quando venceu internamente a posição do partido não ter candidatura própria a presidência da República, para apoiar a chapa encabeçada por Lula, crucial para derrotar Bolsonaro.

PSOL com Lula pelo Direito ao Futuro

Fazer parte da coligação, apresentando inclusive 13 pontos ao programa de governo de Lula, dos quais 12 foram incorporados de imediato, construir a federação com o REDE, colocando esse partido também na coligação, e a ainda mais recente aprovação do PSOL estar no Governo de Transição, são eventos que apontam para que o partido não apenas participe do próximo governo, discutindo a ocupação de espaço de suas figuras, mas também que ajude Lula a governar o país pela base, disputando o governo para as pautas fundamentais nesse momento transitório de reconstrução da dignidade do povo trabalhador, para deter a sanha golpista e fascista da extrema direita, combater seus crimes contra a democracia, erradicar a fome, promover políticas públicas e recuperar os investimentos públicos, proteger o meio ambiente e os direitos fundamentais dos povos originários, das crianças e adolescentes, das mulheres, dos negros, LGBTQIAP+, para gerar emprego, renda e oportunidades para quem mais precisa. E o mais importante, não permitir o retorno da extrema direita e do nazifascismo no nosso país, que estará ainda vivo e presente seja na sociedade, como também nos parlamentos, não se engane. Não é tempo de vacilação, muito menos de achar que integrar o governo retira a autonomia do partido em defender os direitos da população, a rejeição ao nome de Lira para presidente da Câmara é um grande exemplo disso.

Depois de tudo isso, todo esse caminho e diante de um momento absurdamente atípico que enfrenta nosso povo, participar do governo é uma questão de coerência, mesmo que lá na frente em alguma eventual mudança conjuntural a decisão venha a ser discutida, o momento exige coragem e não de se desviar das responsabilidades históricas. Nosso partido já tem idade suficiente para superar suas crises de adolescente em crescimento, e assumir a maturidade que a história exige.

O sergipano Márcio Macedo do PT, recentemente afirmou que o governo Lula será um “governo de Transição”, muito feliz essa sua colocação, na minha humilde opinião, pois o que virá depois vai depender do que faremos dele, sem esquecer jamais que, na porta a espreita, está forte a uivar, a cadela do fascismo. E dessa forma, o fracasso desse governo será o fracasso da esperança, de todo povo brasileiro e de toda esquerda mundial e de todas as pessoas que defendem a democracia. E não será nenhum “purismo de ocasião” que salvará a pele ou a biografia de seu ninguém.

Por Bira Palmarino

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