Avesso: Sobre tempo, lagartixas e outras inquietações

Por Thalita Síntique
Cultivo há algum tempo uma prática um pouco questionável em nosso recorte pós-moderno. Olho para as coisas e questiono o cru, o utilitário delas, até que se tornem, para mim, algo outro. Algo lacunar às minhas certezas e, por vezes, amorfo e inútil. Penso que é preciso colocar do avesso o óbvio, de ponta-cabeça a materialidade das coisas existentes, para que possam, talvez, ampliar os seus sentidos ou, melhor, os meus sentidos. Confesso já ter observado uma lagartixa “por horas”. A disponibilidade dela ao meu tempo psicológico, exagerado e hiperbólico, foi mote para a escrita de um dos meus textos mais existenciais. O que se pode aprender com elas? Não respondo, apenas indico. Tente parar.
Quanto a esse preâmbulo confuso e confessional, explico agora o ponto de que não se pode exigir inventividade, criatividade ou até mesmo ínfima produção sem tempo. Há um equívoco recorrente em nossa época ao desejar os frutos da criação sem conceder as condições que a tornam possível. É sobre o ócio e sobre o tempo, esses elementos cada vez mais escassos e, paradoxalmente, indispensáveis, que desejo especular nas linhas que seguem.
A ilustração de uma observação de horas, por certo, não é literal. Quem dera eu pudesse me pôr prostrada diante de qualquer ser ou elemento do mundo tempo suficiente para não sair do nosso encontro com queixas-lacunas. Quando falo da prática de colocar do avesso o óbvio, declaro a minha ausência de tempo para me resolver, em par com a inquietude, e defino que aquele processo todo de redescoberta será ensimesmado dentro da minha cabeça. Passarei dias sozinha, a qualquer brecha e descanso no travesseiro, tentando entender o que quer dizer o silêncio, a nova cor de uma fachada, a resposta ríspida que recebi, um poema, a fatura do cartão alta demais. Quando não tenho tempo para assumir e presentificar as minhas dúvidas, percebo que o grave das coisas fica e se acumula. Só não fica o tempo. Esse, temos que dividir ou, talvez, doar sem limites ao “utilitário” da vida, que nos distancia de nossa inquietante e potencial existência criativa.
Logo, talvez não nos faltem criatividade ou respostas com tanta frequência quanto imaginamos e nos cobramos. Talvez nos faltem as condições para encontrá-las. Há uma diferença considerável entre não ter o que dizer e não possuir o tempo necessário para gestar o que será dito. Tenho pensado que muitas das inquietações que carregamos não permanecem sem resposta por sua complexidade, mas por falta de convivência. Falta-nos o tempo para permanecer diante delas. O tempo para acompanhar uma pergunta sem a ansiedade de uma conclusão imediata. Tempo para nos estranhar com calma. Talvez por isso o tempo-nosso, a subjetividade e a demora de nossa própria mente pertençam a quase tudo, menos a nós mesmos. Há sempre algo que nos solicita, nos interrompe ou nos desloca de nossas próprias elaborações. E aquilo que não pode ser pensado no encontro acaba sendo acumulado, sufocado na parede áspera da rotina. Nessas condições, o ócio não me parece um luxo, tampouco uma inutilidade. Aproxima-se mais de uma condição necessária. Não para fugir das obrigações da vida, mas para habitá-la com alguma inteireza e autenticidade.
Quanto a isso, lembro-me de Hermann Hesse e de sua defesa dos ociosos. Não porque suas palavras encerrem a discussão, mas porque apontam para uma suspeita que me acompanha há algum tempo. E se o ócio não fosse lido como ausência de trabalho? E se fosse presença? Presença diante do mundo, diante das coisas simples e, sobretudo, diante de si. Afinal, o que pode surgir quando deixamos de exigir um resultado ou uma resposta imediata daquilo que observamos ou que nos afronta? Não sei, mas suspeito que daríamos de encontro com o sublime das nossas possibilidades, com o genuíno eu-criativo. Aqui, falo da criatividade artística por ser o terreno que caminho, mas a pausa e o resgate do humano dentro de sua própria humanidade devolveriam a inventividade e a leveza a qualquer outra área da vida.
Chego, assim, ao cerne deste ensaio. Durante algum tempo estive sem escrever. Ou, para ser mais honesta, estive sem tempo para escrever. As páginas permaneceram vazias, mas a vida seguiu acumulando lacunas e pequenas inutilidades. Hoje suspeito que a ausência de escrita não significava necessariamente ausência de criação. Algo continuava acontecendo nas regiões menos visíveis do pensamento, ali onde as ideias verdadeiramente amadurecem e silenciam, sem que as percebamos potencialmente significativas.
Escrevo estas linhas porque, em algum momento recente, abriu-se uma pequena fresta. Um intervalo. Um desses raros instantes em que o tempo parece devolver-se ao seu dono. E foi nesse espaço mínimo, aparentemente insignificante, que a escrita-vida encontrou novamente uma passagem. Talvez a criação não exija de nós uma genialidade permanente. Talvez peça apenas tempo suficiente para que as coisas possam, enfim, tornar-se algo outro. Uma roupa do avesso, uma lagartixa não na parede, mas no chão. O humano com tempo de si.

O seu relato sobre a lagartixa e a suspensão do tempo captura exatamente a essência da vita contemplativa que o filósofo Byung-Chul Han tanto defende. Vivemos tão esmagados pela ‘lógica dos eventos’ e pela utilidade frenética que acabamos completamente anestesiados. O que você descreve, o simples e profundo ato de demorar-se no ordinário, é um ato de resistência.
Você reforça em mim a coragem de limpar a vidraça da rotina para enxergar as coisas com a calma que elas exigem. É permitir que a ‘lógica dos sentidos’, a pura estesia, volte a respirar antes que a agitação nos engula.
Seu texto pra mim foi um lembrete cirúrgico e necessário para que eu não deixe a minha capacidade de contemplação e criação ser esmagada pela exaustão diária.
Professor Jorge Luduvice
Que texto maravilhoso. Muito fluído, uma leitura prazerosa e que nos ensina muito sobre nós mesmos. Em tempos de IA é uma enorme fresta que se abre.