Barbárie Interminável: A carne mais barata do mercado se tornou o ‘crime mais grave da História’


Entre o veredito da ONU e o negacionismo das potências: a escrevivência contra a necropolítica.

“A escravidão é uma brutalidade que está fora de todas as constituições e de todas as leis.” (Rui Barbosa)

 

Por Cláudio Hiroshy

A Organização das Nações Unidas (ONU) consolidou um marco jurídico e ético sem precedentes ao declarar o tráfico de africanos escravizados como o crime mais grave já registrado na história da humanidade. Esta não é apenas uma revisão histórica; é o reconhecimento de um sistema que, por séculos, desumanizou corpos pretos para erguer as bases da economia global moderna. Entretanto, a votação revelou uma fenda geopolítica profunda: EUA, Israel e Argentina foram as únicas nações a votarem contra a resolução, expondo a persistência de estruturas que se recusam a confrontar as dívidas do passado.

O filósofo camaronês Achille Mbembe nos fornece a chave para entender o voto contrário desses países através do conceito de Necropolítica. Para Mbembe, o poder soberano não se define apenas pelo direito de legislar, mas pelo poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer.

O tráfico negreiro foi a forma máxima de necropolítica: o corpo africano foi transformado em “coisa” e “moeda”. A recusa de potências globais em validar essa declaração da ONU é uma tentativa de manter o que Mbembe chama de “o direito de ignorar a morte do Outro”. Ao votar contra; essas nações tentam evitar a responsabilidade pelas tecnologias de controle e exclusão que ainda hoje operam em suas fronteiras contra corpos negros e migrantes.

O historiador e cientista senegalês, Cheikh Anta Diop, dedicou sua vida a provar a unidade cultural da África e a importância do Egito Negro para a civilização mundial. Para Diop, o tráfico de escravizados não foi apenas um crime econômico, mas um crime de “falsificação histórica”.

A declaração da ONU ressoa o pensamento de Diop ao devolver a centralidade do trauma africano à história universal. O voto contrário de nações que se colocam como “berços da democracia” ignora a tese de Diop: o progresso do Ocidente é indissociável da exploração sistemática do conhecimento e da força física africana. Negar a gravidade desse crime é, em última análise, tentar apagar a contribuição e o sofrimento que Diop lutou para documentar.

Já o Prêmio Nobel de Literatura, Wole Soyinka, defende que a memória é o único caminho para a justiça. Em suas críticas ao colonialismo, Soyinka argumenta que o mundo nunca pediu desculpas reais à África. A decisão da ONU é esse “pedido de desculpas” formalizado juridicamente, e somente apenas.

Para Soyinka, a resistência de países como os EUA e Israel em aceitar essa classificação demonstra um medo da reparação — não apenas financeira, mas moral. O autor acredita que, enquanto o crime não for nomeado em sua máxima escala, a humanidade continuará a repetir ciclos de violência racial, pois a ferida permanece aberta e sem assepsia.

Para trazer essa discussão para o território brasileiro e a experiência íntima da diáspora, recorremos a Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus, duas das mais brilhantes autoras nacionais.

A declaração da ONU é uma forma de “escrevivência” coletiva. É o ato de registrar a história a partir da perspectiva de quem a viveu na pele. Conceição Evaristo nos ensina que a nossa história não pode ser contada por nossos carrascos. O voto contrário da Argentina, por exemplo — país que historicamente tentou “branquear” sua população — é uma tentativa de silenciar a escrevivência negra na América Latina.

Já Carolina Maria de Jesus descreveu a fome e a favela como o “quarto de despejo” da sociedade. O tráfico transatlântico foi o ato original de jogar seres humanos no “despejo” da história. A resolução da ONU tenta, tardiamente, tirar esses milhões de ancestrais do quarto de despejo e colocá-los no centro da consciência humana.

A classificação do tráfico como o crime mais grave da humanidade retira o véu do “comércio” e expõe a “barbárie”. O isolamento diplomático de EUA, Israel e Argentina nesta questão serve como um lembrete de que a luta antirracista é global e enfrenta resistências poderosas que ainda lucram com o esquecimento.

Como diria Conceição Evaristo, “eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer”. A vitória na ONU é a prova de que a memória negra venceu o esquecimento institucional e proposital.

 

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