Bolsonarismo: Delírio de Superioridade e Violência: ecos de Crime e Castigo na realidade brasileira”


“A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota.”  (Jean-Paul Sartre)

A literatura de Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, oferece uma chave poderosa para compreender não apenas a psicologia individual do crime, mas também certas distorções morais que podem se manifestar coletivamente. Ao trazer essa reflexão para o presente, é possível ampliar a análise e relacioná-la a um fenômeno alarmante e dolorosamente atual: o aumento e a recorrência de casos de feminicídio no Brasil.

Nos últimos anos — e especialmente em tempos recentes — o país tem assistido a uma sucessão de episódios brutais de violência contra mulheres. Casos que se repetem com uma regularidade assustadora, muitas vezes marcados por requintes de crueldade e por um elemento em comum: o sentimento de posse. Homens que não aceitam o fim de relacionamentos, que se sentem donos do corpo e da vida das mulheres, e que, diante da frustração, recorrem à violência extrema como forma de controle final.

No romance, o personagem Raskólnikov constrói uma teoria que o coloca acima das normas comuns, legitimando sua ação violenta como se fosse um direito. Essa ideia de superioridade moral — de estar acima do outro — encontra ecos diretos em muitos casos de feminicídio. O agressor não enxerga a mulher como sujeito autônomo, mas como propriedade. Quando essa “propriedade” escapa ao seu controle, ele se sente autorizado a punir.

Esse padrão não surge no vazio. Ele é alimentado por uma cultura que, historicamente, naturalizou a desigualdade entre homens e mulheres, reforçando papéis de submissão feminina e autoridade masculina. Quando discursos públicos relativizam a violência, ironizam denúncias ou reforçam estereótipos de gênero, criam um ambiente simbólico onde esse tipo de comportamento encontra terreno fértil.

É nesse ponto que o debate se conecta com o bolsonarismo. Embora a violência contra mulheres atravesse diferentes contextos sociais e ideológicos, é inegável que determinados discursos associados a esse campo político têm sido criticados por reforçar visões hierárquicas e tradicionais de gênero. A exaltação de uma masculinidade autoritária, a deslegitimação de pautas femininas e a naturalização de falas misóginas contribuem para um ambiente em que o respeito à autonomia das mulheres é constantemente tensionado.

Importante ressaltar que não se trata de afirmar que todos os apoiadores de um campo político sejam responsáveis por tais crimes. No entanto, quando uma narrativa coletiva reforça ideias de controle, superioridade e negação de direitos, ela pode — direta ou indiretamente — alimentar comportamentos violentos em indivíduos que já operam sob essa lógica.

Assim como Raskólnikov tenta justificar seu crime por meio de uma construção racional distorcida, muitos agressores constroem suas próprias justificativas: “ela me desrespeitou”, “ela me traiu”, “ela era minha”. São discursos que revelam uma incapacidade profunda de reconhecer o outro como sujeito livre. E, como em Crime e Castigo, nenhuma dessas justificativas elimina a gravidade do ato — apenas expõe sua raiz moral corrompida.

Dostoiévski nos ensina que o verdadeiro castigo não está apenas na punição externa, mas na ruptura interna que o crime provoca. No entanto, o que se observa em muitos casos contemporâneos é justamente a banalização dessa ruptura: crimes são relativizados, culpabiliza-se a vítima, e a violência passa a ser tratada como consequência “emocional” ou “passional”, como se isso diminuísse sua gravidade.

Os recentes casos de feminicídio no Brasil não são eventos isolados — são sintomas de uma estrutura social que ainda falha em garantir às mulheres o direito básico à vida e à autonomia. E, enquanto essa estrutura for sustentada por discursos que naturalizam a desigualdade e a dominação, a violência continuará se reproduzindo.

Relacionar esses fenômenos não é simplificar, mas aprofundar o debate. É reconhecer que ideias têm consequências, que discursos moldam comportamentos e que nenhuma sociedade pode se eximir de responsabilidade diante de suas próprias narrativas.

No fim, a lição de Crime e Castigo permanece atual: o maior perigo não está apenas no crime em si, mas na ideia de que ele pode ser justificado. E enquanto houver quem se sinta no direito de decidir sobre a vida de outro — especialmente sobre o corpo e a existência das mulheres — estaremos diante não apenas de uma crise de segurança, mas de uma profunda crise moral.

Por Cláudio Hiroshy

 

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