Direita e Esquerda contra o abismo: a derrota do fascismo como imperativo democrático e geopolítico
“A ciência nunca fez mal à liberdade, e o desenvolvimento intelectual do povo, mediante a difusão das verdades positivas, é a condição absoluta e a determinante infalível da democracia liberal em toda a parte. (Rui Barbosa)
Por Cláudio Hiroshy
A preservação do regime democrático exige a superação de disputas partidárias ordinárias diante de rupturas institucionais iminentes. Quando as regras do pacto social são ameaçadas por forças que rejeitam a própria legitimidade da alternância de poder e a dignidade humana, a fronteira entre esquerda e direita democráticas torna-se secundária frente ao imperativo da sobrevivência republicana. O bolsonarismo transcendeu os limites do conservadorismo tradicional para se consolidar como uma manifestação contemporânea do fascismo, combinando pulsões totalitárias, retórica desumanizadora e métodos que ecoam os períodos mais sombrios do século XX. A contenção dessa maré autoritária no Brasil não é apenas uma questão de soberania doméstica, mas um ponto de inflexão na geopolítica global.
Para dissecar a anatomia do bolsonarismo, o ensaio clássico de Umberto Eco sobre o Ur-Fascismo, o (fascismo eterno), permanece como uma das ferramentas conceituais mais precisas. Eco demonstrou que o fascismo não necessita replicar esteticamente as camisas negras de Mussolini ou os desfiles de Nuremberg para existir; ele sobrevive e se reinventa através de um conjunto de traços invariáveis: o culto à tradição, a rejeição ao iluminismo e à ciência, o medo da diferença, o apelo às classes médias frustradas, a obsessão por complôs e conspirações, a transformação da política em uma guerra existencial contínua e a métodos do nazista Joseph Goebbels, que bradava que “uma mentira contada várias vezes torna-se verdade”, uma biblioteca de Fake News.
O bolsonarismo mobiliza esses exatos expedientes. A apropriação do lema “Deus, Pátria e Família”, diretamente herdado da Ação Integralista Brasileira dos anos 1930, a maior organização de massas fascista da história da América Latina, opera como uma couraça ideológica. Sob a aparência de piedade religiosa e zelo cívico, o lema mascara uma agenda de desmonte do Estado de bem-estar social, incentivo ao armamentismo e desumanização de adversários políticos.
Como alertava Umberto Eco, o fascismo eterno sequestra os sentimentos de pertencimento e a fé da população para forjar um consenso autoritário e construir bodes expiatórios. A instrumentalização do sagrado atua como uma blindagem psicológica: qualquer crítica política é distorcida e apresentada como um ataque à própria fé do cidadão, cimentando um fanatismo impermeável ao debate racional.
O recurso ao autoritarismo no Brasil não é um acidente, mas um mecanismo estrutural repetidamente acionado pelas elites reacionárias quando seus privilégios são contestados. O historiador e sociólogo Caio Prado Júnior, um dos intérpretes mais rigorosos da formação nacional, destacou em suas análises sobre o avanço fascista e os dilemas da política brasileira detalhando que a estrutura de dominação tradicional historicamente recorre a arranjos autoritários.
Ao analisar a ascensão do integralismo e a consolidação do Estado Novo getulista, Caio Prado Júnior evidenciou como o pânico moral e o fantasma do comunismo foram orquestrados para sufocar a vida cívica e justificar regimes de exceção. Da mesma forma, sua participação na Aliança Nacional Libertadora (ANL), em 1935, partia da premissa de que a expansão do fascismo só poderia ser contida pela construção de uma ampla barreira antifascista, capaz de reunir forças heterogêneas em defesa das garantias fundamentais e da soberania econômica.
Transposto para o século XXI, o diagnóstico de Caio Prado Júnior ilumina a base material do bolsonarismo: um movimento que mobilizou a histeria ideológica para desestruturar a indústria nacional, subordinar o país oferecendo-o aos interesses rentistas internacionais e sufocar os direitos trabalhistas conquistados ao longo de décadas. O bolsonarismo, portanto, não é apenas um estilo agressivo de governar, mas uma tentativa de restauração das formas mais arcaicas e predatórias de dominação sobre o povo brasileiro.
O Brasil se posiciona hoje como o fiel da balança entre a estabilidade democrática e a ascensão de uma onda internacional autoritária. Com dimensões continentais, riqueza energética incomparável (petróleo, terras raras, água doce e campos eólicos) e a custódia do bioma amazônico, o país representa a mais relevante e estratégica democracia do Sul Global e um dos pilares mais decisivos do Ocidente contemporâneo.
A vitória e a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva transcendem o âmbito doméstico; inserem-se no centro da guerra civilizatória global contra a extrema-direita transnacional. Em um cenário internacional fragmentado por conflitos militares, polarizações assimétricas e ameaças climáticas existenciais, Lula consolidou-se como o mais influente estadista em atividade. Sua atuação diplomática restaura o multilateralismo, defende a autonomia do Sul Global e posiciona o Brasil não como satélite geopolítico, mas como mediador soberano e incontornável nas negociações sobre governança global, transição ecológica e segurança alimentar.
A garantia da soberania nacional entendida como o controle sobre os próprios recursos naturais, a integridade institucional e a independência diplomática são indissociáveis de uma liderança com a densidade política e o prestígio internacional de Lula. Sob o projeto bolsonarista, o país esteve e estará sujeito a um isolamento internacional sem precedentes e à subserviência geopolítica; sob a condução de Lula, a soberania brasileira reassume seu papel ativo no xadrez global.
A divisão entre esquerda e direita republicana em torno de políticas fiscais, regulação econômica ou modelos de previdência é legítima e saudável em qualquer democracia consolidada. Contudo, essa alternância só pode existir enquanto persistir o terreno comum da Constituição e das garantias individuais. Quando uma facção política flerta abertamente com o golpismo, conspira contra o sistema eleitoral, cultua torturadores e normaliza práticas análogas ao nazifascismo, a hesitação política torna-se cumplicidade.
A exemplo das grandes frentes antifascistas que salvaram a Europa no século XX e dos movimentos de redemocratização que uniram conservadores moderados, liberais e progressistas no Brasil contra a ditadura militar, o momento presente exige a superação de sectarismos. Isolar e derrotar de forma definitiva o bolsonarismo é o teste definitivo da maturidade cívica brasileira e a única barreira capaz de garantir que a democracia sobreviva aos seus predadores e que o Brasil continue a exercer sua vocação de liderança civilizatória perante o mundo.
