Do Gato Pedrês à Soberania Digital: A Ética e a Lei como Limites da Civilização


A memória de infância é, muitas vezes, o primeiro território onde travamos contato com a estrutura do mundo. Recentemente, em uma dessas incursões nostálgicas, resgatei uma versão regional e temporal de uma parlenda bastante tradicional e conhecida, que rimavam os números mais ou menos assim: “Um dois, feijão com arroz… dois três, gato pedrês… três quatro, feijão no prato… quatro cinco, porta com trinco”, e por aí vai…

O termo “pedrês” — que descreve aquela pelagem salpicada, cor de asfalto e granito — não é apenas um detalhe estético da língua portuguesa, mas o ponto de partida para uma reflexão sobre como construímos e abordamos nossas verdades e nossas leis.

Na perspectiva Freiriana, entendemos que não existe uma “versão correta” da cultura popular, mas sim variantes legítimas que nascem da experiência de cada povo. No entanto, o gato pedrês nessa rima nos leva a um problema ecológico e ambiental muito real e grave.

 

O Gato como Metáfora do Caos Urbano

Esse animal, tão querido pelas famílias brasileiras e amado pelos algoritmos de vídeos fofos da internet. Cuja tonalidade de concreto e sombra, feito pedras cinzentas, é o ápice da adaptação urbana, prosperou nas ruas muito por ser um mestre da camuflagem. E essa sobrevivência eficiente cobra um preço alto ao meio ambiente. Como predadores especializados, gatos em situação de rua podem ser responsáveis por desequilíbrios severos, podendo empurrar espécies nativas ao abismo da extinção.

Além disso, a predação sem critério provocada por este felino, também pode afetar no controle de pragas. Pois, ao eliminar massivamente animais como sapos, lagartixas e serpentes, além de passarinhos e aves, podem ajudar a aumentar exponencialmente a quantidade de pragas em uma localidade. Consequentemente, adoecendo seu povo e sugando investimentos na saúde pública. Tudo conectado, de ponta a ponta.

Mas não apenas os gatos em situação de rua, gatos domésticos que costumam passar algum tempo fora de casa “para desestressar”, também são parte fundamental desse problema tão complexo.

 

Do Instinto ao Contrato Social: A Ilusão da Impunidade

Aqui, a ecologia encontra a ética. A liberdade do bicho em viver solto na rua é, na verdade, uma falha de consciência humana e um vácuo de políticas públicas. É o instinto operando onde deveria haver o freio da civilidade.

Curiosamente, essa mesma lógica de “território sem lei” reflete-se em mazelas profundas da nossa estrutura social. Quando permitimos que a sensação de domínio prevaleça sobre o respeito ao espaço comum, abrimos brechas para violências sistêmicas, como o machismo e o feminicídio. Nesses casos, o agressor — um “animal” humano — opera sob a mesma ilusão do gato camuflado, a crença de que o espaço do outro dentro da sua intimidade é um território de caça e que a força individual se sobrepõe ao pacto civilizatório.

A violência de gênero, portanto, é o ápice dessa negação da alteridade, onde o agressor se sente livre para exercer seus anseios mais deturpados ao preço da impunidade.

A solução para esses delitos não é tão simples e jamais será resolvida apenas por decreto. Precisamos, obviamente, de legislação e de execução penal contundentes — com penas exemplares —, mas, precisamos sobretudo, de uma nova perspectiva de civilização, está tudo interligado. É necessário educar para a responsabilidade, ensinando que a liberdade individual não pode ser confundida com o aniquilamento da integridade da pessoa próxima ou do bem estar coletivo.

 

Soberania Digital e o Futuro da Democracia

E esse debate ganha sua escala ainda mais complexa, quando transpomos da vida real para o ambiente virtual.

Por muito tempo, as redes sociais foram tratadas como o “beco escuro” do gato pedrês. Ou seja, um lugar de camuflagem onde o anonimato permitia por exemplo a proliferação de células e pensamentos neonazistas, ataques misóginos e desinformação em massa. A internet não é uma simulação inocente e ingênua, nem mesmo se trata de lugar neutro, sem fronteiras ou jurisdição, pelo contrário,  ela é uma extensão da realidade, podendo ter consequências palpáveis e devastadoras, quando mal utilizada.

Defender a regulação das redes sociais é, portanto, uma necessidade urgente, além de um ato de soberania nacional, para o desenvolvimento social e humano, garantindo a solidez da democracia e um ambiente seguro e justo para empresas sérias que atuam dentro dos limites da lei.

Contudo, o “como fazer isso” é que é o grande X geopolítico dessa questão, devido a lobbies políticos bem articulados e discursos extremistas que distorcem o conceito constitucional de liberdade de expressão, esse tema ganha contornos de nebulosidade. Bem como, uma regulação eficaz, não passa apenas por uma questão jurídica, mas principalmente por um processo eficiente de transparência algoritmica.

Ademais, a autodeterminação de um povo exige que o Estado tenha o poder de aplicar suas leis dentro de seu território digital, garantindo que as plataformas não sejam enclaves de impunidade. Para estar preparado o país também precisa investir bastante em tecnologia e formação de quadros, reduzindo com isso sua dependência externa.

O arco, portanto, que une a parlenda do gato pedrês à regulação das Big Techs é a consciência crítica. Contudo, a crítica proposta para a nossa “nova realidade” é simples na teoria, mas hercúlea na prática.

Diante dos embates que dominam os noticiários, resta o questionamento: é realmente possível dar fim à invisibilidade e à impunidade nas redes?

Enfim, seja no controle ambiental, no combate à violência de gênero ou na governança digital, o respeito à Constituição e ao próximo, deve ser o limite soberano de uma nação democrática e desenvolvida.

Afinal, a internet que queremos não pode ser uma “terra de ninguém” camuflada sob o manto de velhas rimas ou novos algoritmos. É esse o mundo que deixaremos para as próximas gerações?

OS: Ahhh e a foto do gatinho? É pra dar engajamento! O algoritmo ama -rsrs.

 

 

Por Ubiratan Ribeiro Santos

Estudante de Ciência de Dados no Campus de Inovação da UFS.

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