Estância: onde o tempo navega em Barcos de Fogo da memória


“Viver é uma maravilha” – Jorge Maravilha
Por Cláudio Hiroshy

Dizem que certas cidades não são apenas coordenadas geográficas, mas estados de espírito. Estância é uma dessas. Quem caminha por suas ruas hoje, se fechar os olhos por um segundo, ainda consegue ouvir o eco dos versos declamados nos coretos e o som da fita de celuloide rodando em projetores que alimentavam sonhos.

Houve um tempo em que a “Cidade Jardim” se vestia de gala para o cinema. A vida pulsava sob as luzes do Cine Itatiaia, que guardou o glamour até o fim dos anos 60, assim como, o icônico Cine São João. Os mais antigos dizem que é difícil esquecer a expectativa da inauguração do Cine Guarany em 1972, ou a elegância do Cine Gonçalo Prado. Eram templos de cultura viva onde a sociedade se encontrava não apenas para ver filmes, mas para ser vista, trocando olhares que valiam mais que mil poemas.

A intelectualidade fervilhava. Não é por acaso que o primeiro jornal de Sergipe nasceu aqui, O Recopilador Sergipano. Estância sempre esteve à frente de seu tempo e com tinta nas veias e voz na garganta. Os recitais poéticos nos coretos transformavam as praças em palcos abertos, onde a palavra era a autoridade máxima. Essa tradição não morreu; ela evoluiu para o maior e mais antigo festival de poesia falada do nordeste, o FESPOFALE, mantendo viva a chama da métrica e da rima.

Mas o tempo, esse senhor implacável, trouxe consigo a melancolia da saudade. Olhamos para trás e sentimos falta daquela Estância de outrora, onde a arte parecia brotar espontaneamente das calçadas. Hoje, observamos atentos a Sociedade dos Incautos, uma cia de teatro que vem provocando e transformando a cena teatral não apenas em Estância, mas além fronteiras.

Com uma estética que desafia o óbvio, esses novos artistas bebem na fonte do dramaturgo e mestre Adonnys Diniz, e imprimem uma urgência contemporânea. Eles ocupam os espaços, subvertem a lógica do entretenimento vazio e provam que o teatro estanciano continua sendo um organismo vivo, capaz de incomodar e encantar na mesma medida, mantendo acesa a chama da dramaturgia em solo sergipano.

Falar de Estância é citar uma constelação de talentos que presentearam e presenteiam o mundo. A cidade é um ateliê a céu aberto. Não tem como esquecer a delicadeza da arte sacra de Judite Melo, as telas vibrantes de Félix Mendes, o traço único de Zé de Dome e o talento ímpar dos Gêmeos. Os versos da poesia de Maurício Oliveira ainda posso ouvir, o cordel afiado de Saletinha nos faz sentir, o repente de Seu Enoque é só saudade e a escrita de Acrísio Gonçalves é pura memória. Mas são as canções do saudoso Jorge Maravilha que parecem traduzir a cultura e o balanço das águas estancianas.

E, claro, o espetáculo pirotécnico que é a nossa identidade: o majestoso Barco de Fogo, invenção genial atribuída a Chico Surdo, que risca o céu junino junto com as poderosas espadas. O Buscapé de Antônio Osvaldo, com a boca de cor de assovio fazia o tempo parar na Barão do Rio Branco. É a ciência do povo misturada à fé, ao som das Batucadas Quebra-Côco e Buscapé que fazem o chão tremer.

Se os olhos se encantam, o paladar se rende. A gastronomia estanciana é, sem dúvida, a joia da coroa do interior sergipano. É terra de mangabeiras e de mãos calejadas das marisqueiras, que retiram do mangue e do mar o sustento transformando matéria-prima em iguarias. Dos pratos de frutos do mar à beira das praias mais belas de Sergipe, como o Abais e o Saco, cada garfada é um mergulho na história de um povo.

Estância não é apenas o berço da cultura sergipana; é o colo onde a arte descansa e o fogo da tradição se renova. É uma cidade que, entre um buscapé e um verso de poesia, nos ensina que o progresso só faz sentido se a gente não esquecer de onde viemos e para onde queremos navegar.

 

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