Estância rumo à ALESE: como Gilson Andrade e Professor Dudu podem redesenhar o poder em Estância


“A política trata da convivência entre diferentes. Os homens se organizam politicamente para certas coisas em comum, essenciais num caos absoluto, ou a partir do caos absoluto das diferenças.” – Hannah Arendt

 

Por Cláudio Hiroshy

Conhecida historicamente como o “Berço da Cultura” sergipana, a cidade de Estância parece estar prestes a protagonizar um fenômeno político que há muito não se via no Sul do estado. Para além das tradições dos barcos de fogo, das batucadas e do vigor econômico-industrial, o município chega às vésperas das eleições de 2026 com uma possibilidade concreta e simbólica: a ocupação de duas cadeiras na Assembleia Legislativa de Sergipe (ALESE).

Este cenário ganha contornos específicos nas figuras de Gilson Andrade (MDB) e Professor Dudu (PT). Se a política, para a filósofa Hannah Arendt, é o espaço da “ação” e da manifestação da pluralidade humana, Estância está prestes a converter seu potencial cultural em poder político efetivo.

Gilson Andrade, ex-prefeito e agora um nome recém chegado no MDB, caminha para a disputa em uma chapa densa e inserido num mar de tubarões. Embora o partido abrigue nomes de peso, a trajetória de Gilson em Estância lhe confere o que Arendt chamaria de “autoridade conquistada pelo agir”. Afinal, Gilson foi deputado estadual por dois mandatos, prefeito por dois mandatos e fez o seu sucessor, o atual prefeito André Graça, que segundo os “bastidores” tem dispensado ao ex-prefeito um apoio tímido.

Dito isto, o caminho de Gilson enfrenta dois obstáculos pragmáticso que ecoam nas discussões: um sobre o apoio efetivo da gestão André Graça, já que o que se ouve nos “senadinhos locais” é que muitos servidores comissionados estão alinhados a outros projetos, fragmentando assim a base do prefeito em apoio a Gilson; e  sobre o bem comum que é a privatização do SAAE. A transição para a empresa Iguá, vencedora do leilão, tornou-se um ponto de tensão social. Até o momento, a prestação de serviços tem deixado a desejar, e o descontentamento popular cresce à medida que as taxas pesam no bolso do estanciano sem a contrapartida da eficiência.

Para Arendt, o espaço público é onde cuidamos do que é “comum” (o inter-est). Quando um serviço essencial como a água é percebido como um fardo econômico e uma falha técnica, a “ação política” do gestor que conduziu ou apoiou o processo passa a ser duramente julgada sob a luz da esfera pública. Esse será, inevitavelmente, um dos grandes testes de resistência de sua candidatura.

No outro espectro, surge a figura do Professor Dudu. Militante histórico do Partido dos Trabalhadores (PT) e educador, sua pré-candidatura em 2026 carrega o símbolo da “natalidade” — conceito caro a Arendt, que define a capacidade humana de interromper processos automáticos e trazer o inesperado para o mundo.

Dudu não chega apenas como um nome partidário; de 2024 para cá tem aglutinado um arco de alianças que ultrapassa as fronteiras da estrela solitária no Estado, recebendo o apoio de importantes lideranças do PSOL em Sergipe e da sociedade civil organizada. Esse movimento é a materialização da pluralidade: o reconhecimento de que o espaço público é composto por diferentes perspectivas que decidem agir em conjunto. O apoio de lideranças do PSOL fortalece sua base, transformando uma candidatura de nicho em uma possibilidade real de representação progressista para o sul sergipano, muitas vezes pautada justamente na crítica aos modelos de privatização de serviços públicos feito pelo seu adversário.

Além disso, Dudu não apenas herda a confiança de uma base popular historicamente fiel ao petismo e ao magistério, mas também consolida uma narrativa de alinhamento institucional, sugerindo que sua presença no legislativo estadual facilitará a articulação de políticas federais e investimentos para o estado. Portanto, o nome do Professor Dudu para a Assembleia Legislativa de Sergipe ganha, ainda mais, peso por estar intrinsecamente ligado ao “capital político” do presidente Lula. Em um cenário onde a memória afetiva e os programas sociais ligados à marca Lula são determinantes, essa associação atua como um poderoso catalisador, elevando Professor Dudu de um quadro técnico e educacional a um competidor estratégico com forte apelo nas urnas de todas as cidades sergipanas.

A relação entre o cenário político de Estância e a filosofia de Arendt reside em três pilares fundamentais: O Espaço Público como Palco: Estância busca retomar seu papel de protagonista. O descontentamento com o SAAE e a busca por novas lideranças mostram que o povo quer retomar a gestão da sua própria “casa”. A Pluralidade de Vozes: A coexistência de Gilson Andrade e Professor Dudu mostra que a cidade é politicamente viva. Representam tradições e métodos distintos de encarar a coisa pública. O Julgamento Político: A eleição de 2026 será o momento do “juízo” arendtiano. Para o eleitorado pesará os “avanços” históricos dos mandatos de Gilson contra o desgaste imediato causado pela privatização da água, ao mesmo tempo em que avaliará se a renovação proposta por Dudu possui a solidez necessária para o parlamento.

Se 2026 confirmar as expectativas, Estância quebrará um jejum de representatividade proporcional à sua importância histórica. Entre o MDB de Gilson — que precisará responder pelo impacto social da Iguá — e o PT de Dudu — que tenta canalizar os novos anseios populares — o que está em jogo é a revitalização e reestruturação do “corpo político” estanciano.

Como diria Hannah Arendt, “o objetivo da política é a liberdade”. E para Estância, essa liberdade hoje se traduz na capacidade de projetar suas demandas e sua cultura através de vozes que consigam equilibrar o peso das decisões passadas com as esperanças de um futuro mais justo.

 

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