Gestão André Graça desvaloriza a cultura estanciana e a joga no abstrato
“A cultura de um povo é o seu maior patrimônio
Preservá-la é resgatar a história, perpetuar valores,
é permitir que as novas gerações não vivam sob as trevas do anonimato.”
(Nildo Lage)
A cultura estanciana, tão bela e que já foi reverenciada nos quatro cantos de Sergipe, vem sofrendo fortes golpes desde o início de 2011, quando foi fechado o Memorial da Estância, vizinho ao Colégio Sagrado Coração de Jesus – CSCJ, estando abandonado há mais de 14 anos. De propriedade do Governo do Estado, estava cedido à época a Prefeitura Municipal de Estância segundo algumas fontes pesquisadas. No entanto, o município de Estância nega que estivesse sobre a sua responsabilidade manter o referido memorial, o qual passou por uma obra de recuperação em 2003, pelo saudoso governador João Alves Filho.
Mas foi em 2016, quando a Defesa Civil Municipal realizou o fechamento da Casa da Cultura, ainda na gestão do ex-prefeito Carlos Magno, que os artistas estancianos que já haviam perdido um importante espaço cultural que era o Memorial da Estância, ficaram apreensivos com os destinos da Casa da Cultura, que na UTI, pedia socorro. Naquele momento, como uma espécie de compensação o ex-prefeito Carlos Magno criou o Memorial da Cultura, com a promessa de reformar a Casa da Cultura, que segundo ele não foi concretizada porque foi derrotado nas urnas pelo ex-prefeito Gilson Andrade.
Não podemos esquecer que o Memorial da Cultura abrigava naquele momento a Academia Estanciana de Letras e também o Clube dos Poetas Estancianos, duas importantes instituições litero-culturais da Capital Brasileira do Barco de Fogo.
Gilson, que também havia prometido em campanha revolucionar a cultura estanciana ficou 8 anos no poder e pasmem, os anos foram passando e nada mudou, a Casa da Cultura virou a Casa do Horror digna de filme de terror e found footage, diante do o abandono, o espaço era repleto de vazamentos, infiltrações, matagal e servindo para usuários de drogas, uma cena fantasmagórica, sem que uma mísera reforma fosse feita. E então, veio o mais duro golpe, a Casa da Cultura, que por muitos anos serviu aos artistas estancianos para oficinas, espetáculos, exposições, foi completamente derrubada, restando apenas escombros e lembranças. Mas, para não dizer que não falei das flores, foi feita também uma compensação, a gestão Gilson Andrade criou a Escola Estanciana das Artes, uma ideia do Ex-Secretário de Cultura, Júnior de Dione, com uma estrutura muito menor que a Casa da Cultura é verdade, mas que vinha servindo a grupos de teatro, dança, artistas plásticos, etc., uma ideia muito interessante, atual e que deve continuar.
Vale lembrar que a gestão Gilson Andrade realizou uma pequena reforma no Barracão Cultural, mas que foi cedido para a Secretaria de Juventude e Desporto, quando da implantação do programa Juventude 2.0, Porém, hoje se encontra desestruturado e precisando de uma reforma urgente.
Nos últimos dias começou a se ventilar nos bastidores, que o Memorial da Cultura irá para o prédio onde hoje funciona a Secretaria Municipal da Cultura e a Escola Estanciana das Artes, já que a SECULT está indo de mala e cuia para as instalações do Passeio Guanabara. O problema é que o atual prédio não comporta o Memorial da Cultura e a Escola Estanciana das Artes, sendo que ainda terá que abrigar temporariamente as artesãs, que há muito tempo, merecem um espaço adequado para seus artesanatos. Diante dessa tragédia anunciada surge mais uma vez uma compensação, o Barracão Cultural aos frangalhos irá voltar para o “domínio” da Secretaria Municipal da Cultura. Ao que parece sempre que um pedaço importante da cultura estanciana é destruído, os gestores dão uma leve compensação como uma espécie de remédio paliativo.
Na campanha de 2024 o discurso foi bonito: “vou aumentar em 200% o orçamento da cultura”; e de fato, o São João 2025 teve um aumento estratosférico mas que serviu apenas para os cachês robustos dos artistas nacionais. Na prática a história cantada em verso e prosa está sendo outra em relação aos cachês dos agentes culturais locais que continuam recebendo os mesmos valores de anos anteriores. Apenas os fogueteiros tiveram um mísero aumento no valor dos barcos de fogo, conforme o portal da transparência. E não para por aí, em 10 meses, nenhum grupo de teatro ou de dança, local ou de fora, foi contratado pelo município, seguindo à risca o modelo de gestão Gilson Andrade. Até a cultura popular (batucada, barco de fogo) que deveria ser agraciada com apresentações durante todo o ano, ficaram apenas com as contratações do ciclo junino.
Os gestores precisam compreender que a cultura é a espinha dorsal de qualquer sociedade, pois molda o ser humano, une as pessoas e fortalece as suas crenças, costumes, valores, identidades, tradições, leis, linguagens e expressões artísticas. Sem ela, resta apenas consumo, ruído e vazio. E é aí que os artistas, especialmente do teatro e da dança, se encontram no momento: no vazio, no gueto, no abstrato, já que não dispõem de um local adequado para exercício de sua arte. Há muito tempo que a Cidade Jardim merece um Centro Cultural, com espaço para teatro, dança, cinema, artes plásticas, poesia, cultura popular, artesanato e literatura, porque tentar mudar o mundo não é loucura, não é utopia. É justiça. E a mudança começa na cultura.
Na condição de membro do Conselho Municipal de Políticas Culturais – CMPC, é meu dever alertar ao gestor que será um grande erro transferir o Memorial da Cultura, que inclusive necessita de um olhar mais sensível, para o mesmo espaço onde funciona a Escola Estanciana das Artes, que também necessita de atenção, e como apresentam propostas distintas, um para salvaguardar e preservar a memória da cultura e o outro para formar, treinar, capacitar os agentes culturais, não podem ocupar o mesmo espaço, cada um precisa do seu próprio lugar. Além do mais, o investimento com o aluguel é irrisório comparado ao ganho cultural, pois não existe cultura sem um projeto educativo, nem educação sem uma cultura que a apoie, porque como diz Ricardo Vianna: “Falacias, mentiras e maquiagens. Não existem políticas públicas de segurança eficazes a médio prazo sem um severo investimento em arte, cultura e educação.”
Por Cláudio Hiroshy
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Memorial da Estância


Casa da Cultura


Memorial da Cultura

Escola Estanciana das Artes

