Guerra ou paz: o eixo que realmente divide o Brasil
“Se as pessoas viciosas se unem e formam uma força, as pessoas honestas precisam apenas fazer o mesmo.”
(Liev Tolstói, Guerra e Paz)
Por Cláudio Hiroshy
O Brasil chega às eleições de outubro de 2026 ainda marcado pelas mesmas tensões que abalaram o país nos últimos anos. A leitura mais comum descreve a disputa como uma guerra entre esquerda e direita, dois exércitos entrincheirados sem espaço para trégua. Essa leitura é confortável, porque organiza o mundo em dois lados. É também enganosa. A linha que hoje decide o futuro do país não separa a esquerda da direita. Ela separa quem aceita as regras do jogo democrático de quem pretende quebrá-las quando perde.
Para entender essa diferença, poucos pensadores ajudam tanto quanto Norberto Bobbio. Para entender como ela se resolve na prática, poucos livros ajudam tanto quanto Guerra e Paz, de Liev Tolstói.
Em Direita e Esquerda, publicado em 1994, Bobbio defende que a distinção entre os dois campos continua válida. O critério que ele propõe é a atitude diante da igualdade. A esquerda tende a ver as desigualdades como sociais e, portanto, corrigíveis. A direita tende a vê-las como naturais, ou ao menos inevitáveis. É uma divergência legítima, e dela nasce a alternância saudável entre governos.
A contribuição mais importante do livro, porém, está no segundo eixo que Bobbio sobrepõe ao primeiro: o que separa moderados de extremistas. Esse eixo não mede o que se deseja para a sociedade, e sim os meios que se aceitam para chegar lá. Pelo esquema de Bobbio, os extremistas, sejam de direita ou esquerda, por mais que se detestem, compartilham algo essencial, que é o desprezo pela democracia como método. Da mesma forma, um conservador democrata e um social-democrata, por mais que discordem sobre impostos, costumes ou o tamanho do Estado, compartilham aquilo que mais importa: a convicção de que o poder se conquista pelo voto.
Em O Futuro da Democracia, Bobbio define o regime democrático de forma deliberadamente modesta, como um conjunto de regras que estabelecem quem está autorizado a tomar decisões coletivas e por meio de quais procedimentos. Essa definição mínima é a que interessa quando a democracia está ameaçada. Não se trata de concordar sobre o conteúdo das decisões, mas sobre o método. Quem perde reconhece a derrota, quem vence governa dentro de limites, e ambos voltam a disputar na eleição seguinte.
Vista por essa lente, a história recente do Brasil fica mais clara. Os acampamentos em frente aos quartéis, a minuta de decreto golpista, os planos investigados pela Polícia Federal contra autoridades da República e a depredação das sedes dos três Poderes em 8 de janeiro de 2023 não foram episódios de uma disputa entre esquerda e direita. Foram ataques ao método. A condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal, em setembro de 2025, pela tentativa de golpe, deve ser lida no mesmo registro: o que está em julgamento não é uma ideologia, e sim a recusa das regras.
Tolstói escreveu Guerra e Paz em parte para desmontar uma ilusão: a de que a história é feita por grandes homens. No romance, Napoleão acredita comandar os acontecimentos, mas o narrador mostra que o rumo das batalhas depende de milhares de vontades pequenas, anônimas, muitas vezes contraditórias. O imperador é arrastado pela história tanto quanto imagina dirigi-la.
A democracia brasileira sobreviveu aos anos de 2022 e 2023 de maneira muito tolstoiana. Não houve um herói solitário. Houve servidores da Justiça Eleitoral que fizeram seu trabalho, comandantes militares que, segundo seus próprios depoimentos à investigação, recusaram-se a aderir à ruptura, governadores de diferentes partidos que condenaram o 8 de janeiro, presidentes da Câmara e do Senado que reconheceram o resultado das urnas, jornalistas, juízes, prefeitos e eleitores comuns que simplesmente não aceitaram o convite ao abismo. Nenhum deles, isoladamente, salvou nada. Juntos, foram decisivos.
Há também em Tolstói a figura do marechal Kutuzov, velho, sonolento e ridicularizado pelos generais mais brilhantes. Ele sabe que não vencerá Napoleão num lance genial e confia em duas armas, a paciência e o tempo. Para quem defende a democracia, essa lição é valiosa. As instituições não devem responder ao extremismo com os métodos do extremismo. A tentação de atalhos, de suspender garantias em nome de salvá-las, é exatamente a armadilha que o autoritarismo prepara. O caminho de Kutuzov é mais lento e menos glorioso: devido processo, provas, julgamentos, eleições.
Há poucas semanas, o próprio presidente Lula ofereceu um testemunho involuntário da tese de Bobbio. Em entrevista à TV Record, na noite de 23 de agosto, ele comentou o nível da política e disse sentir falta de debater com os presidenciáveis de outras eleições. “Eu tenho saudade do tempo que eu disputava eleições com o PSDB”, afirmou, citando nominalmente Mário Covas, José Serra, Fernando Henrique Cardoso e Geraldo Alckmin, e acrescentando que o quadro foi piorando e que a qualidade dos candidatos diminuiu em relação às disputas anteriores, com gente que acredita que fazer sucesso nas redes basta para chegar à Presidência.
A frase merece ser lida para além do contexto eleitoral. Lula enfrentou esses nomes em campanhas duríssimas. Perdeu para Fernando Henrique duas vezes, derrotou Serra em 2002 e Alckmin em 2006, em disputas marcadas por ataques mútuos. Ninguém ali escondia as divergências sobre privatizações, política econômica ou programas sociais. E, no entanto, havia um chão comum que nenhum deles pisava fora: as urnas eram respeitadas, o derrotado cumprimentava o vencedor, a transição acontecia. Eram adversários, nunca inimigos da República.
É exatamente isso que Bobbio chama de moderação. Lula e os tucanos estavam em lados opostos do eixo da igualdade, mas do mesmo lado do eixo do método. A saudade que o presidente expressa não é de uma época sem conflito, e sim de uma época em que o conflito tinha regras. Não por acaso, um dos nomes dessa lista, Geraldo Alckmin, tornou-se seu vice-presidente. O adversário de 2006 virou o aliado de 2022 porque ambos entenderam que, diante de quem ameaça o próprio jogo, as diferenças sobre a igualdade podem esperar.
Tolstói diria que essa é a sabedoria de quem já viu muitas batalhas. Nas páginas finais de Guerra e Paz, os personagens que sobreviveram à guerra aprenderam que a glória pessoal importa menos do que a vida comum que se reconstrói depois dela. A saudade dos velhos debates é, no fundo, a saudade de uma política em que se podia perder sem que o país corresse perigo.
É aqui que entra o ponto central deste artigo. A esquerda, sozinha, não conteria o avanço da extrema-direita no Brasil, e seria ingênuo pensar o contrário. A eleição de 2022 foi decidida por margem estreita e só se tornou possível porque figuras de fora do campo progressista escolheram o lado da democracia. Geraldo Alckmin, adversário histórico do PT, aceitou a vice-presidência. Simone Tebet, candidata do centro, declarou apoio no segundo turno. Fernando Henrique Cardoso, que por décadas liderou a oposição aos governos petistas, fez o mesmo. Nenhum deles abandonou suas convicções. Apenas reconheceram que, naquele momento, a divergência sobre a igualdade era menos urgente do que a defesa do método.
No epílogo de Guerra e Paz, Pierre Bezukhov resume uma ideia que parece escrita para o Brasil atual: se os que agem de má-fé se unem e formam uma força, os honestos precisam fazer o mesmo. A frente ampla democrática é essa união. Ela não exige que o liberal vire socialista nem que o socialista vire liberal. Exige apenas que ambos reconheçam, com Bobbio, que estão do mesmo lado do eixo que importa.
A direita democrática tem, nesse processo, uma responsabilidade que ninguém pode assumir por ela. Um país precisa de um campo conservador forte, capaz de fazer oposição firme, de ganhar eleições e de governar. Quando esse campo é colonizado pelo extremismo, quem perde não é apenas a esquerda, é a própria direita, que vê seus quadros moderados expulsos, seu programa substituído pelo ressentimento e seu nome associado à ruptura. Em outros países, partidos conservadores ergueram o chamado cordão sanitário, recusando alianças com forças antidemocráticas mesmo quando isso lhes custava votos. Na França de 2002, eleitores de esquerda votaram em Jacques Chirac, um conservador, para barrar Jean-Marie Le Pen. A defesa da democracia funciona nos dois sentidos.
Seria desonesto invocar Bobbio apenas contra um dos lados. O mesmo eixo que condena o extremismo de direita exige da esquerda uma disciplina que ela nem sempre pratica. Chamar de fascista todo eleitor conservador empurra justamente os moderados para os braços dos extremistas. Tratar a frente ampla como uma adesão incondicional ao projeto petista destrói a confiança que a tornou possível. E governar como se a vitória eleitoral autorizasse tudo repete, em outra escala, o desprezo pelos limites que se critica no adversário.
Bobbio escreveu também um pequeno ensaio chamado Elogio da Serenidade, em que defende a virtude de quem não se deixa dominar pela sede de vencer e humilhar o outro. É uma virtude rara na política brasileira de hoje, e ninguém a pratica de forma exemplar. Mas uma democracia só se mantém de pé quando os adversários aceitam que continuarão convivendo depois da eleição.
Em uma das cenas mais conhecidas do romance, o príncipe Andrei, ferido no campo de Austerlitz, olha para o céu alto e silencioso e percebe como sua ambição de glória era pequena. Até Napoleão, seu antigo ídolo, parece-lhe insignificante diante daquela imensidão.
A política brasileira precisa de um momento assim. Diante do que esteve em jogo nos últimos anos, as vaidades partidárias, os ressentimentos acumulados e as disputas por protagonismo parecem pequenos. O que importa é garantir que, depois de outubro, o vencedor governe, o perdedor se prepare para a próxima disputa e ninguém cogite rasgar as regras. A guerra, no título de Tolstói, é o que acontece quando o método falha. A paz é o trabalho paciente, coletivo e pouco heroico de quem, vindo de lados diferentes, decide preservá-lo.
