Inteligência Artificial não é moda e o Comércio Local precisa dela agora

“Mas é você que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem”
Belchior
A memória de quem vive em Estância é preenchida pelo estalo da pólvora, pelo brilho do Barco de Fogo e pelo calor humano das festas juninas. Ralar a fivela ao som do trio pé de serra, “alumiar” os becos com o rastro dos buscapés, os sabores típicos, a fogueira na porta, as ruas enfeitadas… é essa conexão cultural que integra e expressa a alma do lugar.
E é nesse cenário de cultura vibrante e pulsante que o Campus de Inovação da UFS se estabelece. Temos então a “tempestade perfeita” para demonstrarmos na prática que a tradição e a modernidade podem e devem conviver em simbiose e ter a tecnologia como aliada do desenvolvimento.
Como estudante da primeira turma de Ciência de Dados deste Campus, tenho testemunhado de perto o potencial dessa chegada. E é através dessa experiência que começo a entender os mecanismos por trás do que chamamos de Inteligência Artificial, que na prática são modelos de linguagem natural, obtidos através de muito treinamento e cálculos matemáticos.
Para quem está se embrenhando nesse mundo da tecnologia informacional, fica evidente como este termo muitas vezes é usado de forma simplista. No fundo, estamos lidando com ferramentas poderosas de lógica e processamento de padrões, que ainda passam longe do que realmente define a inteligência no sentido humano. Sobre isso, o neurocientista Miguel Nicolelis sempre traz reflexões importantes, lembrando que existe um abismo entre o funcionamento biológico do cérebro e o “pensamento” das máquinas.
Esse avanço tecnológico também tem um custo invisível. As grandes empresas globais investem bilhões em centros de dados cada vez mais robustos, que consomem volumes massivos de água e energia para funcionar. É um debate ambiental necessário, já que esse crescimento pode acelerar fenômenos como a desertificação.
Contudo, mesmo com tanto investimento, aquela ideia de que a máquina superará o ser humano continua sendo uma hipótese pouco provável, trata-se de distopias cinematográficas. O que é real, porém, é a automação e as chamadas análises preditivas, que já transformam a indústria, o campo e o setor financeiro, ajudando a prever tendências e a tomar as melhores decisões, além de ajustes de percursos quando necessário.
Ignorar esse movimento é perder o bonde da modernização.
No dia a dia do nosso comércio local, a tecnologia pode ser uma grande aliada. A inteligência artificial já ajuda pequenos empreendedores a organizar melhor seus estoques, entender quais marcas fazem sentido para a nossa região e público-alvo, no direcionamento de promoções e ofertas, além de evitar desperdícios. Aquilo que quem empreende já faz por intuição e experiência mas agora aprimorado com o rigor da ciência tecnológica.
No marketing, ela permite que quem não pode contratar grandes agências consiga produzir materiais de qualidade para divulgar seu trabalho. Além disso, a automatização do atendimento em lanchonetes e restaurantes para serviços de delivery, através de chats inteligentes, agiliza os pedidos e organiza o fluxo.
Isso permite que o trabalhador saia do sufoco das telas e possa dedicar o que tem de melhor ao cliente, que é a atenção, o sorriso e o olho no olho do atendimento presencial.
Existe, claro, uma preocupação justa sobre o futuro do trabalho. É verdade que algumas funções repetitivas podem se tornar obsoletas gradativamente e deixarão de existir, mas outras profissões e formas de atuar surgirão. O ponto central aqui é que a tecnologia deve ser determinante para o desempenho profissional, crescimento econômico e para a qualidade de vida de toda a população.
O ser humano, portanto, é único e imprescindível. Nenhuma linha de código substitui a criatividade e a sensibilidade de quem entende o calor da nossa gente, pelo menos por enquanto. As máquinas podem processar dados, mas não sentem a vibração, o sotaque, o jeito, o espírito da nossa cultura! É preciso ser gente, e gente faz diferença.
No fim das contas, a inovação só faz sentido se for para servir às pessoas, garantindo que a tecnologia trabalhe por nós, enquanto preservamos aquela centelha que nos torna humanos.
E você comerciante, vai usar a IA como ferramenta ou vai deixar que ela use você como mera estatística?
Por Ubiratan Ribeiro Santos
Estudante de Ciência de Dados do Campus de Inovação da UFS.
