Moïse Kabagambe, a cultura da violência e a banalização da morte


 

Não foram uma, duas ou três. Foram dezenas de pauladas esmigalhando um corpo que os assassinos julgavam não ser de um humano. Moïse Mugenyi Kabagambe, 24, teve seu sonho interrompido por uma cultura de violência que vem alastrando nosso país. A flexibilização para porte de armas, o aumento vertiginoso de milícias, a violência contra a mulher, o racismo, xenofobia, a intolerância religiosa e o preconceito contra a comunidade LGBTQIA+ são culturas de violência que aumentou significativamente nos últimos anos. E todos sabemos porque!

A República Democrática do Congo (RDC) é, ao mesmo tempo, um dos países mais ricos e mais pobres do mundo. É mais rico em termos de matérias-primas – bens essenciais como cobalto e coltan, utilizados na produção de carros elétricos e smartphones –, com valor estimado hoje em US$ 24 trilhões. Mas a maioria esmagadora da população vive na extrema pobreza. O Congo ocupa o 176º lugar entre 189 países no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas.

Com a guerra civil, iniciada nos anos 90 e término em 2001, estima-se que entre os anos 1996 e 1998, mais de 6 milhões de congoleses foram mortos numa guerra financiada pelos Estados Unidos e Inglaterra. A partir de 2010 fortes novos conflitos recomeçaram e a miséria se tornou insuportável o que fez muitos congoleses deixarem o país em busca de uma vida melhor.

Moÿse tinha vindo atrás dessa vida. Dando o seu suor no Quiosque Tropicália na Orla do Rio, o jovem de 24 anos levava uma vida de esperança e agradecimento por não está no Congo, afinal ele a família tinha vindo para o Brasil em 2011 fugidos da violência. Mas foi justamente o que Moïse encontrou, a violência que nos envergonha, que nos comove, que nos faz repensar o quão a nossa sociedade está doente. Tudo o que Kabagambe queria era o pagamento de 200 reais pelos dias de trabalho, mas recebeu tortura e morte.

Caetano Veloso escreveu em um post no seu twitter: Chorei hoje lendo sobre o assassinato de Moïse Mujenyi Kabagambe num quiosque na Barra da Tijuca. Que o nome do Quiosque seja Tropicália aprofunda, para mim, a dor de constatar que um refugiado da violência encontra violência no Brasil. Para mim e certamente para o Gilberto Gil, Capinam, Rita Lee, Tom Zé, Sérgio Dias, Gal Costa, Arnaldo Baptista, Julio Medaglia, Manuel Barenbein…e fere a memória de Rogério Drupat, Torquato Neto, Nara Leão, Guilherme Araújo… Sobretudo a de Hélio Oiticica que criou o termo. Tenho certeza de que a família Oiticica está comigo nessa amarga revolta. O Brasil não pode ser o que há de mesquinho e desumano em sua formação.”

O congolês foi morto dia 24, mas o caso só veio a repercutir uma semana depois. Pelo nível de brutalidade do crime, o fato da vítima ter sido amarrada e espancada até a morte, jogada na areia de um bairro nobre do Rio mostra o quanto banalizamos a morte. Além dos três assassinos, identificados no vídeo e já presos, a família quer saber das outras pessoas que estavam envolvidas, já que cinco pessoas aparecem no vídeo.

É importante salientar que Moïse foi vítima de um arcabouço da violência estimulada por racistas, xenófobos, homofóbicos, machistas e intolerantes que ameaçam e fragilizam a nossa jovem democracia, esperança de paz e a verdade do povo brasileiro.

Perdoe-nos Moïse Kabagambe e que você encontre além da paz eterna o que não encontrou no Brasil.

Por Cláudio Hiroshy

 

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