O coronelismo de roupa nova: Ronaldo Caiado e a velha face da direita

“ser pobre é o efeito; a causa é outra” (Caio Prado Júnior)
Na corrida presidencial de 2026, Ronaldo Caiado (PSD) tenta moldar uma imagem de “direita equilibrada” — uma alternativa à retórica inflamável do bolsonarismo, mas com o mesmo DNA conservador e extremista. No entanto, por trás do figurino de gestor eficiente de Goiás, o que emerge é o retrato mais nítido da velha política oligárquica, onde o poder é um negócio de família e a lei parece ter dois pesos e duas medidas.
O primeiro grande aceno de Caiado ao espólio eleitoral do ex-presidente Jair Bolsonaro foi a promessa de que seu primeiro ato como presidente seria uma anistia ampla. Ao tentar se colocar como o pacificador que “limparia o tabuleiro”, Caiado ignora a gravidade das investigações sobre o 8 de janeiro e ataques às instituições. É a política do perdão para os de cima, enquanto para os movimentos sociais, o tratamento é o rigor do chicote e da criminalização.
Caiado tem sido um dos críticos mais ferozes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), chegando a acusar o movimento de ligações com o narcotráfico, o que é uma imensa falácia. No entanto, a memória política do “coronel” e os registros de campanha revelam conexões incômodas e o seu telhado de vidro.
Um dos principais financiadores de suas campanhas foi Alexandre Funari Negrão (Alexandre Medley). Durante a CPI do Narcotráfico em 2000, Negrão foi indiciado após investigações que apontaram o uso de sua estrutura para o refino de cocaína. Líder histórico da União Democrática Ruralista (UDR) nos anos 80, Ronaldo Caiado presidia a entidade quando o líder seringueiro Chico Mendes foi brutalmente assassinado a mando de fazendeiros ligados à organização. A UDR foi o braço armado do latifúndio contra a reforma agrária, protagonizando uma das eras mais sangrentas do campo brasileiro.
A ‘genealogia do poder’ de Caiado é marcada por registros que ele tenta esconder nos discursos de “ordem e progresso”. Seu tio, Antônio Ramos Caiado, por exemplo, integrou a “lista suja” do trabalho escravo do Ministério do Trabalho, após fiscais encontrarem trabalhadores em condições análogas à escravidão em suas propriedades. Seu primo, Enival Ramos Caiado, figura do setor de mineração, acumula processos por crimes ambientais e violações de direitos humanos, mostrando que o desrespeito à terra e às pessoas é um traço persistente na dinastia familiar.
O modelo de gestão “Caiadista” reflete-se na capital de seu estado. Segundo dados do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), Goiânia ostenta o título amargo de uma das cidades com maior concentração de renda e desigualdade social da América Latina. O Índice de Gini da cidade revela um abismo: uma elite agrária e empresarial que acumula fortunas astronômicas enquanto uma massa da população sobrevive com o mínimo.
Ao analisar a figura de Ronaldo Caiado, é impossível não recorrer à tese do historiador e geógrafo Caio Prado Júnior sobre o caráter do reformismo no Brasil. Para Prado Júnior, o que muitas vezes se vende como “progresso” ou “gestão eficiente” nas mãos das elites agrárias é apenas o prolongamento do passado colonial sob novas roupagens técnicas.
Caio Prado argumentava que a estrutura agrária brasileira não é um “resquício feudal”, mas uma peça central de um capitalismo dependente. Caiado encarna perfeitamente essa simbiose: utiliza tecnologia de ponta no agronegócio e gestão de dados em Goiás (o “novo”), enquanto mantém a estrutura de propriedade de terra e as relações de poder baseadas na exclusão (o “velho”). No pensamento de Prado Júnior, não há contradição entre o jato privado e o chicote; ambos servem para manter a acumulação de renda que faz de Goiânia a capital da desigualdade.
Prado Júnior enfatizava que o verdadeiro reformismo no Brasil deveria passar, necessariamente, pela democratização da terra e pela integração das massas rurais à cidadania. Quando Caiado criminaliza o MST e o associa ao narcotráfico — ignorando, como aponta o artigo, as investigações sobre seus próprios financiadores —, ele está operando exatamente o que Caio Prado denunciava: a manutenção de uma “ordem” que nada mais é do que a blindagem da propriedade latifundiária contra qualquer reforma estrutural.
Ronaldo Caiado não é uma “nova via”; é a tentativa de sobrevivência de um Brasil arcaico que se recusa a morrer. É o coronelismo que trocou o cavalo pelo jato privado, mas que mantém a mesma estrutura de exclusão social, blindagem de aliados e perseguição a quem luta pela terra. Ao prometer anistia como prioridade, ele confirma que sua presidência seria o triunfo final da impunidade para as elites sobre a justiça para o povo.
