O dilema da mobilidade estanciana: a tarifa sobe, a dignidade desce e a licitação não acontece

“O transporte é, sem dúvida, um dos componentes que podem ajudar a mudar a cidade.” — Jan Gehl
Por Cláudio Hiroshy
Estância, carinhosamente apelidada de Cidade Jardim, Berço da Cultura ou Capital Brasileira do Barco de Fogo, vive hoje um paradoxo doloroso. Enquanto suas praças e o patrimônio histórico remetem a um passado de esplendor, o cotidiano de quem nela se desloca revela uma realidade de abandono. A necessidade de um projeto de mobilidade urbana sustentável não é mais uma pauta para o futuro; é uma dívida histórica que já passou da hora de ser quitada.
Recentemente, a população foi surpreendida por um projeto de aumento na tarifa do transporte público aprovado na Câmara Municipal, com apenas o voto contrário do vereador Isaias Negobia (PSOL). Em qualquer gestão eficiente, o aumento de preço deveria ser o reflexo de uma melhoria no serviço. Em Estância, porém, o que se vê é uma indecência.
Com uma frota sucateada, veículos antigos, sem uma manutenção adequada e desconfortáveis, a cidade Berço da Cultura opera em moldes arcaicos, sem um contrato de concessão moderno que exija metas de qualidade, cumprimento de horários e renovação da frota. Quem não lembra da senhora que caiu em um buraco dentro do ônibus? Em janeiro de 2026 a ASTELE comunicou que suspenderia o serviço de transporte aos domingos devido à baixa demanda; todo esse descaso empurra o cidadão para o transporte por aplicativos, que embora seja uma alternativa individual, a migração em massa sobrecarrega o trânsito local e evidencia a falência do transporte de massa, que deveria ser a espinha dorsal da cidade.
Para entender por que Estância precisa urgentemente de uma revolução na mobilidade, devemos recorrer a três grandes pensadores que definem o que é uma cidade funcional, justa e humana.
O arquiteto dinamarquês Jan Gehl defende que a cidade deve ser planejada na escala humana. Em Estância, as ruas foram tomadas por veículos, enquanto as calçadas são negligenciadas, devido a problemas estruturais, como buracos, desníveis e obstáculos. Um projeto sustentável para a Cidade Jardim deve priorizar o pedestre e o ciclista, transformando o deslocamento em uma experiência de convivência, e não em um teste de resistência sob o sol da histórica e idílica cidade Berço da Cultura, dos poetas, intelectuais e da cultura popular.
O geógrafo Milton Santos nos ensinou que o território não é apenas chão, mas um “campo de forças”. Na Capital Brasileira do Barco de Fogo, a falta de um transporte público eficiente gera uma segregação socioespacial. Quem mora nas periferias e nos novos conjuntos habitacionais fica “imobilizado” pela tarifa alta e pelo serviço ruim. Sem mobilidade, o cidadão é privado do acesso pleno ao centro, ao lazer, a cultura e ao trabalho — o que Santos chamaria de uma cidadania mutilada.
O engenheiro e sociólogo Eduardo Vasconcellos argumenta que a mobilidade não é apenas uma questão técnica, mas uma decisão política de redistribuição de tempo. O aumento da passagem em Estância sem a contrapartida de qualidade é uma transferência injusta de renda do trabalhador para os operadores ineficientes do sistema. Vasconcellos defende que a prioridade absoluta deve ser o transporte coletivo sobre o individual, algo que só será alcançado em Estância através de uma licitação rigorosa e transparente.
Não basta reclamar; é preciso projetar. Uma Estância sustentável exige:
- Licitação Imediata: Um processo que atraia empresas capazes de oferecer veículos com acessibilidade e tecnologias menos poluentes; ou, a gestão municipal criar um incentivo para que as cooperativas troquem suas frotas, desde que amparado por uma legislação municipal específica.
- Sistema Binário de Trânsito: Transformar ruas ou avenidas paralelas e próximas, que antes eram de mão dupla, em vias de sentido único opostas, situação iniciada por Ivan Leite, descontinuada por Carlos Magno e ignorada por Gilson Andrade e André Graça;
- Ciclovias e Caminhabilidade: Interligar os bairros ao centro através de ciclovias seguras, honrando o título de Cidade Jardim com arborização urbana que proporcione conforto térmico aos ciclistas e pedestres.
- Subsídio e Tarifa Justa: Discutir formas de financiamento que não pesem apenas no bolso do usuário, tratando a mobilidade como um direito social, tal qual a saúde e a educação.
A mobilidade urbana em Estância chegou ao seu limite. Manter o status quo é condenar a cidade ao atraso e o cidadão ao desrespeito. Inspirar-se em Jan Gehl, Milton Santos e Eduardo Vasconcellos é entender que a rua é o espaço mais democrático que existe. É hora da administração pública e a sociedade civil exigirem um transporte que trate o estanciano com a dignidade que ele merece. A Cidade Jardim não pode continuar travada no fumo dos escapamentos de uma frota vencida pelo tempo.
