O espelho partido de Guto Zacarias: entre a retórica conservadora e o ‘Abismo da Hipocrisia’

“Os homens deviam ser o que parecem ou, pelo menos, não parecerem o que não são.” (William Shekespeare)
Por Cláudio Hiroshy
A política brasileira é frequentemente um palco de personagens bifrontes, mas poucos casos recentes ilustram tão bem o descompasso entre a imagem pública e a conduta privada quanto o episódio envolvendo o deputado estadual Guto Zacarias (União-SP), um dos principais agentes políticos do MBL. O parlamentar, que construiu sua carreira sobre os pilares do conservadorismo e a defesa intransigente de “valores”, vê-se agora no centro de uma denúncia devastadora: a de ter pressionado uma ex-namorada a realizar um aborto — prática que ele, publicamente, condena como execrável.
Este hiato moral não é apenas um escândalo político; é um fenômeno sociológico que remete às análises mais profundas da elite intelectual brasileira do século XIX, especialmente nas figuras de Joaquim Nabuco e Machado de Assis.
Joaquim Nabuco, ao analisar a formação do caráter brasileiro e a persistência da escravidão, falava sobre como a elite convivia harmoniosamente com princípios liberais na teoria enquanto praticava a barbárie na prática. Para Nabuco, o hipócrita institucionalizado é aquele que possui uma “consciência dupla”.
No caso de Zacarias, essa dualidade é cristalina. Nas redes sociais, o deputado performa a retórica do “Direito à Vida”, angariando votos e influência junto ao eleitorado religioso e conservador. Contudo, no ambiente doméstico, quando a “vida” em questão ameaça sua trajetória política ou conveniência pessoal, o princípio torna-se um fardo descartável. Como diria Nabuco, é o uso da máscara da civilização para esconder o instinto de preservação do privilégio.
Ninguém dissecou a hipocrisia com tanta maestria quanto Machado de Assis. Em “A Teoria do Medalhão”, o pai aconselha o filho a evitar ideias próprias e a cultivar uma aparência de gravidade e virtude para triunfar na vida pública. O importante não é ser, mas parecer.
Guto Zacarias personifica o “Medalhão” contemporâneo. Suas redes sociais são o “folhetim” onde ele encena uma moralidade rígida, servindo-se do que Machado chamava de “formas exteriores”. A denúncia do aborto forçado revela o que está por trás da fachada: o egoísmo que o Bruxo do Cosme Velho tão bem descrevia em personagens como Dom Casmurro ou Brás Cubas. A hipocrisia, para Machado, é a lubrificação necessária para que o medíocre ascenda ao poder, vendendo ao público uma pureza que ele próprio desconhece.
A gravidade da acusação contra Zacarias reside no fato de que o aborto, para o campo político que ele representa, é o “crime supremo”. Ao supostamente coagir uma mulher ao procedimento, ele não apenas trai sua plataforma política, mas exerce uma forma perversa de poder sobre o corpo alheio para proteger sua própria imagem de “homem de bem”.
O contraste é violento:
- Enquanto personagem é defensor da família, dos valores cristãos e da vida desde a concepção.
- Como pessoa é acusado de instrumentalizar o aborto como solução higienista para um “problema” privado.
A história de Guto Zacarias é o lembrete de que a hipocrisia é o vício que a maldade paga à virtude. Se Joaquim Nabuco estivesse vivo, veria em Zacarias a persistência daquela elite que prega a liberdade enquanto mantém correntes escondidas. Se Machado de Assis escrevesse sobre ele, riria da ironia de um homem que se perdeu entre o que posta e o que vive.
Para além das consequências jurídicas, o deputado agora enfrenta o tribunal da coerência. No Brasil, onde o discurso moralista é frequentemente usado como escudo para desvios éticos, o caso Zacarias serve como um espelho machadiano: ele revela que, muitas vezes, aqueles que mais gritam em defesa da moralidade são os que mais precisam de silêncio sobre suas próprias vidas.
