O espetáculo da CPI do Crime Organizado: o teatro grego entre Alessandro Vieira e o STF


“Não há nada no mundo que esteja melhor repartido do que a razão: todos estão convencidos de que a tem de sobra” (René Descartes)
Por Cláudio Hiroshy

A tríade do teatro grego — tragédia, comédia e drama satírico — equilibrava o solene e o ridículo. A tragédia lidava com o destino inevitável dos heróis; a comédia expunha os vícios da sociedade; e o drama satírico unia o universo dos deuses ao riso escrachado. A tragédia, gênero mais antigo, com foco no destino, deuses e heróis, no qual os protagonistas sofriam um destino trágico, retrata o atual momento da política brasileira, sem se afastar da crítica social e política que fez surgir a comédia.

O cenário político brasileiro é frequentemente palco de manobras que priorizam o palanque em detrimento da justiça. O relatório final da CPI do Crime Organizado, apresentado pelo senador Alessandro Vieira (MDB), é o exemplo mais recente dessa dinâmica. Ao pedir o indiciamento de três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Procurador-Geral da República (PGR), o senador parece ter trocado a eficácia investigativa pelo aceno estratégico ao eleitorado bolsonarista, visando o pleito de 2026.

Para compreender a movimentação de Vieira, podemos recorrer à análise de Patrick Charaudeau sobre o discurso político. Segundo o linguista, a política se sustenta em um triângulo de adesão: 1º – A Desordem Social: O crime organizado e a suposta conivência das altas cortes. 2º – O Inimigo Culpado: A personificação do “mal” nos ministros do STF e no PGR; e 3º – O Salvador: O político (Vieira) que, corajosamente, enfrenta o sistema.

Ao focar nos ministros, o senador utiliza o que Arthur Schopenhauer descreve em “A Arte de Ter Sempre Razão”. Através da dialética erística, definida como a arte de vencer debates e impor argumentos, independentemente da verdade factual, ele desvia o foco de alvos concretos e investigações técnicas para um embate ideológico de alta visibilidade. Pouco importa se o pedido de indiciamento possui base jurídica sólida; o objetivo é a vitória retórica perante a opinião pública.

Eleitoralmente o movimento de Alessandro foi tático e estratégico, ninguém pode negar. Se vai converter em votos, só o tempo dirá. No entanto, parece que o erro de Vieira não reside apenas em quem ele incluiu, mas em quem ele deixou de fora. O relatório ignora figuras centrais que pairam sobre investigações graves, como o empresário Daniel Vorcaro, preso devido os crimes envolvendo o Banco Master, o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, e o ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha. Além disso, a ausência de nomes vinculados à Operação Carbono Oculto, como Beto Louco que recentemente ofereceu 1 bilhão ao MP/SP para que aceite a sua delação, retira do relatório do senador a densidade necessária para uma verdadeira ofensiva contra o crime estruturado, que tem sua gênese na Faria Lima.

A reação da cúpula do Judiciário foi imediata e severa. Os ministros Gilmar Mendes e Dias Toffoli sinalizaram uma “guerra” aberta contra o senador. Toffoli, de forma contundente, insinuou que as ações de Vieira podem configurar abuso de poder, o que abriria caminho para um processo que poderia culminar em sua inelegibilidade, em claro tom de ameaça. No tabuleiro de Brasília, o tiro que visava 2026 pode ter atingido o próprio pé do parlamentar.

O atual impasse evidencia a erosão do sistema tripartite proposto por Montesquieu em “O Espírito das Leis” (1748). A separação entre Legislativo, Executivo e Judiciário deveria garantir esferas independentes e harmônicas para evitar a tirania. No entanto, o que vemos hoje é uma distorção perigosa dessas funções, onde o Brasil se encontra refém da ausência de reformas essenciais:

A primeira é uma Reforma Política. O atual sistema eleitoral e orçamentário é disfuncional. O Congresso Nacional hoje sequestra o orçamento da União por meio de um volume astronômico de emendas parlamentares, com destaque para as opacas “Emendas Pix”, que pulverizam recursos públicos sem fiscalização efetiva, servindo apenas para a manutenção dos chamados “currais eleitorais”. Além disso, o sistema favorece desproporcionalmente o capital financeiro, onde o poder econômico dita quem possui viabilidade eleitoral, asfixiando a representatividade popular real.

A segunda é uma Reforma do Judiciário. Embora o Judiciário deva ser o guardião da Constituição, é imperativo que a Alta Corte não cometa abusos, o que provavelmente fez com que o senador Alessandro Vieira propusesse desde o início do seu mandato de senador a CPI da Lava Toga, que fracassou após retiradas de assinaturas e forte articulação política, incluindo a família Bolsonaro. A autocontenção é vital; o Judiciário não pode atuar como legislador positivo ou perseguidor político. Uma reforma precisa trazer mecanismos de controle que garantam que nem mesmo os ministros estejam imunes ao império da lei, evitando que o “freio e contrapeso” se torne uma ferramenta de retaliação pessoal ou política.

O Brasil não suporta mais o custo desse teatro. A superação dessa crise não virá de relatórios seletivos ou de ameaças de inelegibilidade, mas de uma Reforma Política que liberte o Orçamento da União do clientelismo financeiro e de uma Reforma do Judiciário que institucionalize limites claros contra o abuso de autoridade. Enquanto o sistema eleitoral for refém do capital e o sistema jurídico for palco da tragédia grega com vinganças pessoais, o país continuará sendo um cenário onde “ter sempre razão” — como diria Schopenhauer — importa mais do que ser efetivamente justo.

Sem essas mudanças, o Brasil continuará assistindo a “salvadores da pátria” que utilizam o erário e o tempo do Congresso para encenar batalhas épicas, enquanto os verdadeiros arquitetos da desordem social permanecem intocados nas sombras de relatórios.

A jovem democracia brasileira precisa urgentemente de novas regras.

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