O fascismo de ontem e o neofascismo de hoje


“Os perigos da política fascista vêm da maneira específica como ela desumaniza segmentos da população. Ao excluir esses grupos, limita a capacidade de empatia entre outros cidadãos, levando à justificação do tratamento desumano, da repressão da liberdade, da prisão em massa e da expulsão, até, em casos extremos, o extermínio generalizado”. (STANLEY, 2018, pág. 8)

Ao analisar os regimes fascistas do século XX, torna-se evidente que sua principal característica não residia apenas no autoritarismo político ou na concentração de poder estatal, mas, sobretudo, na construção de uma lógica de exclusão social baseada na desumanização de determinados grupos. Nesse sentido, a reflexão do filósofo Jason Stanley revela-se particularmente pertinente ao afirmar que “os perigos da política fascista vêm da maneira específica como ela desumaniza segmentos da população” (2018, pág. 8). Tal observação permite compreender o fascismo não apenas como um fenômeno circunscrito à Itália de Benito Mussolini ou à Alemanha de Adolf Hitler, mas como uma forma de prática política cujos elementos podem reaparecer em contextos históricos distintos, assumindo novas linguagens e estratégias de mobilização que por vezes se apresentam de formas sutis e distintas mas que preservam elementos estruturais..

O fascismo clássico emergiu em um cenário marcado por crises econômicas, instabilidade institucional e profundas transformações sociais nos inícios do século XX, porém algumas características que contribuíram para sua formação estavam presentes em fins do século XIX a começar pelos processos de industrialização e modernização acompanhadas de movimentos de politização e mobilização das massas (GENTILE, 2019). Diante dessas tensões, seus líderes recorreram à criação de inimigos internos, responsabilizando minorias étnicas, religiosas e políticas pelos problemas nacionais, ganhando entusiastas no mundo todo, inclusive no Brasil. A propaganda desempenhou papel central nesse processo ao produzir representações que retiravam desses grupos sua condição de pertencimento à comunidade política, sejam eles judeus, comunistas, ciganos e outras populações passaram a ser retratados como ameaças à ordem social, à segurança nacional ou à própria identidade do povo. A exclusão simbólica precedeu e legitimou a exclusão material, abrindo caminho para perseguições sistemáticas, encarceramentos, deportações e, em sua expressão mais extrema, o genocídio.

Embora as condições históricas contemporâneas sejam distintas daquelas que possibilitaram a ascensão dos regimes fascistas europeus, diversos estudiosos têm identificado a emergência de fenômenos frequentemente caracterizados como “neofascistas”. Evidentemente, não se trata de uma simples repetição do passado, o neofascismo não se organiza necessariamente em partidos de massas uniformizados, tampouco reivindica abertamente a supressão da democracia representativa. Sua atuação ocorre, em grande medida, no interior das próprias instituições democráticas, apropriando-se de seus mecanismos e de suas linguagens. Contudo, sob essas novas formas, permanecem elementos fundamentais da tradição fascista, especialmente a construção de fronteiras rígidas entre aqueles considerados legítimos membros da comunidade nacional e aqueles apresentados como ameaça à sua integridade.

Uma das características mais evidentes desse fenômeno é a utilização sistemática de discursos de ódio dirigidos a grupos historicamente marginalizados. Imigrantes, minorias étnicas, populações periféricas, movimentos sociais e organizações de defesa dos direitos humanos frequentemente tornam-se alvos de narrativas que os associam à criminalidade, à corrupção moral ou à desordem social. Um exemplo disso encontra-se em discursos que tendem a minimizar fenômenos estruturais como o racismo, reinterpretando-os como conflitos meramente individuais ou episódicos e obscurecendo a compreensão de suas dimensões históricas e institucionais. O objetivo não consiste apenas em desacreditá-los publicamente, mas também em reduzir a capacidade de identificação e solidariedade entre os diferentes segmentos da sociedade. Atomiza-se as mazelas sociais, desprezando a responsabilidade coletiva, desarticulando as poucas defesas dos tidos por “perdedores”. Transformando então determinados grupos em objetos de suspeita permanente, enfraquece-se a percepção de que seus direitos devem ser igualmente protegidos.

Cabe enfatizar o seguinte aspecto: à tentativa de desmobilização das formas coletivas de organização social. Assim como os regimes fascistas históricos buscaram controlar ou eliminar sindicatos, associações civis e organizações políticas independentes, o neofascismo contemporâneo frequentemente dirige sua crítica contra movimentos sociais e instituições intermediárias da sociedade civil. Em lugar da compreensão dos problemas sociais como resultado de processos históricos e estruturas coletivas, promove-se uma visão fortemente individualizante da realidade. Questões relacionadas à pobreza, ao desemprego ou à desigualdade passam a ser interpretadas como consequências exclusivas das escolhas individuais, obscurecendo os fatores estruturais que contribuem para sua reprodução, aprofundando a marginalização. Essa atomização da experiência social enfraquece os vínculos de solidariedade e dificulta a construção de respostas coletivas para problemas coletivos.

Paralelamente, observa-se a recorrente apropriação de símbolos nacionais como instrumentos de delimitação política e identitária. Bandeiras, hinos e referências patrióticas deixam de representar a pluralidade da nação para serem apresentados como patrimônio exclusivo de determinados grupos. Cria-se, assim, uma divisão entre um suposto “povo verdadeiro e patriota” e aqueles que seriam seus adversários ou inimigos. Tal estratégia remete diretamente às experiências fascistas do século XX, nas quais a identidade nacional era concebida de forma homogênea e excludente, incompatível com a diversidade social e política característica das democracias liberais modernas.

A relação com as instituições democráticas também apresenta elementos de continuidade. Embora o fascismo histórico tenha promovido a destruição explícita das instituições liberais, suas manifestações contemporâneas tendem a operar por meio de um processo gradual de desgaste institucional. Universidades, imprensa, tribunais e órgãos de controle passam a ser constantemente desacreditados quando produzem interpretações divergentes das narrativas defendidas por determinados líderes ou movimentos. O problema não reside na crítica em si, elemento legítimo em qualquer regime democrático, mas na tentativa sistemática de minar a confiança pública em instituições responsáveis pela mediação dos conflitos sociais e pela garantia dos direitos fundamentais. Não é de se espantar que frequentemente o conspiracionismo seja seu aliado, Não é de se espantar que o conspiracionismo frequentemente se torne seu aliado, uma vez que substitui a argumentação racional pela suspeita permanente e pela simplificação dos conflitos sociais. Quando essas instituições são apresentadas como obstáculos à vontade popular, cria-se um ambiente favorável à concentração de poder e à relativização das garantias legais. A quem de fato serve tal política extremista? Certamente a grupos interessados na manutenção de hierarquias sociais, raciais ou econômicas já estabelecidas.

As diferenças entre o fascismo histórico e o neofascismo contemporâneo não devem ser ignoradas. O contexto internacional, as estruturas políticas e os meios de comunicação são profundamente distintos daqueles existentes na primeira metade do século XX. Ainda assim, a comparação revela permanências significativas. Em ambos os casos, verifica-se a construção de narrativas excludentes, a mobilização do ressentimento social, a identificação de inimigos internos e a corrosão dos mecanismos de solidariedade democrática. As formas mudam; os princípios subjacentes, porém, permanecem notavelmente semelhantes. É preciso desenvolver argucidade para estas devidas distinções e capacidade de localizá-las e combatê-las.

Cabe ressaltar que o combate às ideologias antidemocraticas é um dever de todos os cidadãos conscientes. Historicamente o fascismo está atrelado à extrema direita, sabemos que o espectro político direitista é bem amplo e nele residem pessoas comprometidas com a democracia, especialistas  como o historiador Emilio Gentile costumam enfatizar estas diferenças: conservadorismo é distinto de reacionarismo – uma revolução ao inverso, um retorno a um passado idealizado. A exemplo de conservadores como Winston Churchill, Kuehnelt-Leddihn e Eric Voegelin, que foram opositores e perseguidos pela Alemanha NAZI. Tal termo deve ser evitado como mero xingamento, quem geralmente protagoniza tal comportamento age em prol da defesa de interesses escusos – geralmente para fins eleitoreiros – , promovendo esvaziamento conceitual e “banalização da maldade” – fazendo uso de termos arendtianos – incutindo ainda mais ódio nas massas. O neofascismo deve ser objeto de análise crítica séria, a começar em estudos e rodas de debates dentro da sala de aula, para se evitar equívocos básicos e não promover desinformação, assim como costumam operar neofascistas. Por isto recomendo obras de intelectuais credenciados como as de Jason Stanley, Emilio Gentile, Zeev Sternhell, Richard J. Evans e Robert Paxton.

O risco representado pela política fascista não se limita à possibilidade de regimes abertamente ditatoriais, mas manifesta-se sempre que grupos humanos são privados de sua plena condição de pertencimento à comunidade política. A história demonstra que processos de exclusão raramente começam com violência física em larga escala; geralmente iniciam-se com discursos que naturalizam desigualdades, difundem preconceitos e enfraquecem a empatia social. Compreender essas continuidades históricas constitui um passo fundamental para a defesa dos valores democráticos e para a preservação de uma esfera pública fundada no reconhecimento da dignidade humana e na pluralidade política.

Sami França Silveira é graduado em História pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Acadêmico em Filosofia (UFS) e Técnico em Administração (SENAI). Ocupa a 35° cadeira da Academia Estanciana de Letras (AEL), é escritor e pesquisador da história do protestantismo no Brasil, com ênfase em Estância-SE, e práticas de racialização, além de poeta amador, desenhista e documentarista independente no YouTube.

Referências bibliográficas:

STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles”. Tradução de Bruno Alexander. Porto Alegre: L&PM, 2018. 208 p.

GENTILE, Emilio. Quién es fascista. Traducción de Carlo A. Caranci. Madrid: Alianza Editorial, 2019. 224 p

 

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