O Judas da Contemporaneidade: Flávio Bolsonaro e a entrega da Soberania


“Ontem bajulador, hoje traidor.” 
Por Cláudio Hiroshy

No interior do Nordeste, o Sábado de Aleluia é marcado por um rito de expiação: a Malhação de Judas. O boneco de palha, vestindo trapos e carregando a culpa coletiva, é açoitado e queimado em praça pública sob os gritos de uma comunidade que busca purgar a traição. Hoje, essa figura arquetípica encontra um rosto político familiarizado em Flávio Bolsonaro, cujas recentes sinalizações sobre a entrega das terras raras brasileiras aos Estados Unidos evocam o amargor do beijo de Iscariotes no solo pátrio.

A traição, no contexto da soberania nacional, não se manifesta por um segredo sussurrado, mas pela disposição de entregar o que é vital à sobrevivência e ao futuro do país. As terras raras — minerais essenciais para a tecnologia de ponta e a transição energética — representam o “ouro do século XXI”.

Ao sinalizar a entrega desses recursos a interesses estrangeiros (especificamente norte-americanos), Flávio Bolsonaro abdica da autonomia brasileira. É a reedição do gesto bíblico: a venda do mestre (neste caso, a Nação) por moedas de conveniência política e submissão ideológica. No imaginário nordestino, o Judas é aquele que quebra o vínculo de confiança com o seu povo para servir a um império que o despreza.

Para Friedrich Nietzsche, a traição está intrinsecamente ligada ao conceito de Ressentimento. O traidor é aquele que, por não possuir a força necessária para criar seus próprios valores (a Vontade de Poder), submete-se ao poder externo, tornando-se um instrumento da vontade alheia. “Aquele que não pode obedecer a si mesmo, será comandado. Tal é a natureza das criaturas vivas”, argumentou Nietzsche, na brilhante obra Assim Falou Zaratustra.

Ao agir como um facilitador do extrativismo estrangeiro, Flávio demonstra a negação da soberania proposta por Nietzsche. Ele não busca a grandeza do Estado, mas a segurança de ser um “bom servo” de uma potência maior. A traição vai além de uma fraqueza de espírito: é a incapacidade de sustentar a dignidade de um povo diante do servilismo do capital internacional.

Se buscarmos a geografia moral da traição, ninguém a descreveu com tamanha precisão quanto Dante Alighieri. Em sua obra máxima, no Inferno, o nono e último círculo não é feito de fogo, mas de gelo (o lago Cocite). Para Dante, a traição é o pecado mais frio, pois exige o congelamento absoluto da empatia e do dever cívico.

No Banquete, Dante discorre sobre a nobreza e o amor às raízes. Para ele, o traidor da pátria é aquele que atenta contra a própria “mãe” que o alimentou. Flávio Bolsonaro, ao rifar as riquezas minerais do Brasil, posiciona-se metaforicamente ao lado de Bruto e Cassio, que mastigados eternamente por Lúcifer, no último círculo do Inferno.

Enquanto o Brasil caminha por encruzilhadas globais, a figura de Flávio Bolsonaro, envolvida em acordos que cheiram a entrega, torna-se o boneco ideal para o poste deste Sábado de Aleluia.

A queima do Judas no sertão não é apenas um ato de violência figurada, mas um ato de justiça poética e política. Queimar o traidor é a forma que o povo encontra de dizer que a terra — e o que há nela — pertence aos que nela pisam e labutam, e não àqueles que, em gabinetes refrigerados, a vendem por um aperto de mão estrangeiro e se engasgam no banquete da servidão. No tribunal de Dante ou nas praças do Nordeste, o veredito é o mesmo: a traição à pátria é o pecado que nem o tempo, nem o gelo, nem o fogo conseguem apagar.

 

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