O Leviatã Digital: Regulação, Fake News, a Estratégia Maquiavélica do Bolsonarismo e a Dominação Invisível

“Que época terrível é esta, onde idiotas dirigem cegos?” (William Shakespeare)
Por Cláudio Hiroshy
Após comentário do radialista Luiz Carlos Dussantus, durante o Jornal da Rio 1ª edição, sobre a regulamentação da mídia, me acendeu a necessidade de retomar um texto que já havia começado e trazê-lo como reflexão.
A “era da pós-verdade” impôs um dilema às democracias: como proteger a liberdade de expressão sem permitir que a desinformação corroa as instituições e/ou a imagem das pessoas? No Brasil, esse debate ganha contornos dramáticos ao observarmos como o bolsonarismo transformou o ceticismo em método e a desinformação em política de Estado.
Diferente do que propaga o senso comum, a regulação da mídia em países desenvolvidos não visa o silenciamento, mas a responsabilidade sistêmica: a Alemanha foca na remoção rápida de discursos de ódio e apologia ao nazismo; a União Europeia obriga as Big Techs a explicarem seus algoritmos, combatendo a entrega viciada de conteúdo; o Reino Unido estabelece o “dever de cuidado”, onde plataformas são multadas se falharem em proteger a sociedade de danos sistêmicos.
Ao analisarmos o comportamento das redes sociais e do movimento bolsonarista sob a ótica de Nicolau Maquiavel em O Príncipe, percebemos uma simbiose perfeita entre a técnica política do século XVI e os algoritmos do século XXI.
Maquiavel ensinava que o governante não precisa ser virtuoso, mas deve parecer ser. Nas mãos do bolsonarismo, o algoritmo atua como o grande simulador. Através de disparos em massa e Fake News, cria-se uma bolha onde a realidade é moldada conforme a necessidade de manutenção do poder. Se a realidade factual é adversa, o “Príncipe” moderno cria uma narrativa paralela que alimente a lealdade de seus súditos digitais.
O esforço do ex-presidente Jair Bolsonaro em descredibilizar as urnas eletrônicas e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nas eleições de 2022 é o exemplo máximo da Maquiavelização do algoritmo.
Maquiavel afirmava que o medo é uma ferramenta de controle mais eficaz que o amor. Ao semear a dúvida sobre o sistema eleitoral, o bolsonarismo utiliza o algoritmo para impulsionar o pânico moral e a desconfiança institucional. Para Maquiavel, o poder não admite vácuo. Ao atacar o TSE, Bolsonaro não buscava apenas a vitória, mas a construção de um cenário onde qualquer resultado que não fosse a sua permanência, fosse visto como ilegítimo. O algoritmo potencializa isso ao entregar esses ataques apenas para quem já está predisposto a acreditar, eliminando o contraditório e solidificando a “bolha”.
As redes sociais não são neutras; elas recompensam o conflito. A tática maquiavélica de “dividir para governar” é automatizada pelo código digital. Quando o ex-presidente ataca o sistema eleitoral, ele gera um pico de engajamento que o algoritmo interpreta como “relevante”, distribuindo o veneno institucional para milhões em segundos.
Nesse ecossistema, a Fake News não é um erro de percurso, mas a própria Virtù do movimento: a habilidade de dobrar a percepção pública à sua vontade, independentemente dos fatos.
Se Maquiavel nos explica a estratégia do poder, Pierre Bourdieu nos explica a mecânica Invisível da dominação. Para Bourdieu, o poder não se exerce apenas pela força física, mas pela capacidade de impor uma visão de mundo como se fosse a única possível. É o que ele chama de Poder Simbólico.
No esquema de Bourdieu, quem detém o poder em um “campo” (neste caso, o campo da comunicação) define as regras do jogo. As Big Techs (Google, Meta, X) hoje detêm o maior estoque de Capital Simbólico da história.
Elas não são apenas empresas; elas são as arquitetas do habitus digital. Ao decidirem o que o algoritmo deve priorizar (o conflito em vez do consenso), elas condicionam o comportamento do usuário. O usuário não percebe que está sendo manipulado porque o algoritmo se integra ao seu cotidiano de forma “doce” e invisível, uma característica central da violência simbólica.
O bolsonarismo foi eficaz ao criar um habitus (um sistema de disposições e crenças) específico em sua base. Através do uso sistemático de Fake News — como os ataques às urnas eletrônicas e ao TSE em 2022 — o movimento logrou êxito em:
- Deslegitimar o Capital Cultural Alheio: Ao atacar a imprensa tradicional, as universidades e o Judiciário, o bolsonarismo tenta anular o capital simbólico dessas instituições. Para o fiel da “bolha”, o diploma de um juiz do TSE ou o selo de verificação de um jornal não valem nada frente ao “vídeo de WhatsApp” que confirma seu viés.
- Criar um Mercado de Bens Simbólicos Paralelo: O movimento construiu seu próprio ecossistema de “especialistas”, canais de notícias e influenciadores. Isso permite que o apoiador viva em um mundo onde a “verdade” é validada por seus pares, e qualquer informação externa é vista como uma invasão herética.
Quando unimos os dois autores, o cenário fica claro: O algoritmo é a ferramenta maquiavélica (busca o resultado prático: lucro e engajamento), mas o efeito é bourdieusiano (cria uma estrutura mental de dominação).
Ao impulsionar a narrativa de Bolsonaro contra o sistema eleitoral, o algoritmo não estava apenas transmitindo uma notícia; ele estava reforçando um Poder Simbólico que diz que “as instituições são o inimigo”. Isso é perigoso porque, uma vez que o indivíduo incorpora esse habitus de desconfiança absoluta, ele se torna imune ao debate racional.
A regulação da mídia, portanto, não é apenas uma questão de apagar postagens mentirosas. Do ponto de vista sociológico, regular é tentar redistribuir o capital simbólico. É garantir que as Big Techs não tenham o poder absoluto de definir o que é real e o que é falso com base apenas no que gera mais lucro.
Sem uma intervenção que traga transparência aos algoritmos, continuaremos vivendo sob o “Leviatã Digital”: um sistema que utiliza a astúcia maquiavélica para exercer uma violência simbólica constante sobre a democracia brasileira.
