O nordeste, o golpe do esquecimento e as Máscaras Brancas


“Os oprimidos sempre acreditarão no pior sobre si mesmos.” (Frantz Fanon)

Houve um tempo em que o Brasil dependia quase que exclusivamente do Nordeste. Entre os séculos XVI e XVIII, a riqueza do açúcar transformou Bahia e Pernambuco no coração econômico da colônia. Salvador era a capital; Olinda e Recife ditavam o comércio atlântico. Não era apenas a região mais próspera do país: era a fiadora das finanças da Coroa portuguesa.

A virada de mesa veio no século XIX. Com a Proclamação da República, o poder de Estado foi capturado pela oligarquia cafeeira do Centro-Sul. O mecanismo foi cirúrgico: o governo federal usou o orçamento nacional para subsidiar e proteger as fazendas de café de São Paulo, enquanto drenava os investimentos do Nordeste. Sem ferrovias, sem hospitais e sem universidades públicas, a região foi abandonada à própria sorte por sucessivos governos conservadores. A seca virou indústria e o povo nordestino, empurrado pela fome, virou a mão de obra barata que ergueu a infraestrutura do Sudeste.

Esse isolamento deliberado durou até 2002. A partir de 2003, com a chegada de Lula à presidência, o Nordeste voltou a constar no mapa do orçamento federal.

Não foi retórica: foi investimento estrutural. O Bolsa Família e a valorização do salário mínimo irrigaram o comércio do interior. Dezenas de campi universitários e institutos federais levaram o ensino superior aonde antes só existia êxodo. Vieram o Porto de Suape e o polo automotivo em Pernambuco, a siderurgia do Pecém no Ceará, as cadeias de energia renovável na Bahia e, mais recentemente em 2026, o megaprojeto de mais de R$ 72 bilhões da Petrobras em Sergipe, reativando a produção de fertilizantes e o gás em águas profundas.

O contraste ficou gritante entre 2019 e 2022, sob o governo Bolsonaro: o Nordeste voltou a ser a região que menos recebeu verbas federais, enfrentou represamento de novos benefícios sociais e foi alvo de deboche institucional aberto.

Diante de fatos tão documentados, a pergunta salta aos olhos: por que ainda existe nordestino que vota e defende projetos políticos que sabotam sua própria terra?

A resposta mais precisa está na obra do pensador martinicano Frantz Fanon: Pele Negra, Máscaras Brancas.

Fanon explica que a dominação colonial não sequestra apenas a economia; ela coloniza a mente do oprimido. Para sobreviver ao estigma imposto pelo dominador que retrata o colonizado como “atrasado”, “preguiçoso” ou “incapaz”, o indivíduo muitas vezes coloca uma “máscara branca”. Ele passa a odiar a si mesmo e aos seus iguais, buscando a aceitação daquele que o subalterniza.

No Brasil, essa máscara é vestida pelo nordestino que compra o discurso xenófobo de que o Sul e o Sudeste “sustentam o país”, enquanto sua própria terra seria um fardo assistencialista. Ao apoiar a direita que corta recursos da sua região, ele tenta provar que não faz parte daquele Nordeste retratado com preconceito; ele tenta se sentir aceito pelo opressor.

Trata-se de uma tragédia psíquica e política. O dominador nunca aceita verdadeiramente a máscara do dominado. Conhecer a própria história e defender os investimentos que transformam a sua realidade não é partidarismo: é a única forma de descolonizar a mente e impedir que o futuro volte a ser ditado pelo preconceito alheio.

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