O Poeta Popular da Cidade Jardim: o Legado Imortal do Mestre Seu Enoque para a cultura de Estância

“Homens como Seu Enoque não morrem, tornam-se memória da própria cultura que ajudaram a construir.” – Cláudio Hiroshy
Por Cláudio Hiroshy
Estância amanheceu mais silenciosa que o normal, era o prenúncio de uma longa e dolorosa partida, mas nas ruas da “Cidade Jardim de Sergipe” ainda ecoam a genialidade, o ritmo e o estalar das tradições que ele tanto defendeu. Enoque dos Santos, carinhosamente conhecido como Seu Enoque, não foi apenas um homem de seu tempo; ele foi o próprio pulsar da cultura popular estanciana. Uma força motriz da natureza artística que dedicou cada capítulo de sua vida a preservar, exaltar e viver a identidade cultural de sua terra.
Com sua partida, a cultura de Sergipe perde um de seus maiores guardiões, mas o seu legado permanece cravado na memória e na história do município.
Falar de Seu Enoque é falar de pluralidade. Ele não se limitava a uma única forma de expressão; sua alma era um caldeirão de manifestações artísticas.
Como cordelista, repentista e embolador, ele dominava a rima improvisada e a literatura de cordel com a agilidade mental dos grandes gênios populares. Sua imensa contribuição à literatura local o levou a ocupar uma cadeira na Academia Estanciana de Letras, unindo o saber do povo à imortalidade acadêmica. Compositor talentoso, ele traduzia o cotidiano estanciano em entoadas. Mas era no São João que sua paixão ganhava faíscas: adora contar da época em que como fogueteiro raiz, ele dominava a arte do fogo e da pólvora, elemento mais que sagrado das festas juninas da Capital Brasileira do Barco de Fogo.
Dono de um carisma excepcional, Seu Enoque transformava qualquer conversa em poesia e qualquer encontro em celebração. Feliz de quem pôde ter cinco minutos de prosa com o mestre da cultura.
A prova viva do impacto de Seu Enoque na cidade Berço da Cultura foi o seu adeus. O seu cortejo fúnebre entra para a história de Estância como um dos mais bonitos e emocionantes já vistos. Não houve espaço para o silêncio frio, mas sim para as manifestações artísticas que ele defendeu a vida inteira.
As ruas foram tomadas por cantigas de batucada entoadas em uníssono, apresentações vibrantes de espadas de fogo, além de um mosaico de representações culturais. Grandes nomes da cultura, da sociedade e da política estanciana fizeram questão de carregar o pavilhão da saudade e render as últimas homenagens:
A força do movimento cultural se fez presente com figuras emblemáticas como: Wilton Santos, poeta e afilhado de Seu Enoque, Wellington do Quilombo Porto D’Areia, Michele da Batucada Quebra-Côco, Shara Gabriella, presidente da Sociedade dos Incautos. O ambiente literário foi representado por Dailton de Castro, presidente da Academia Estanciana de Letras e Cláudio Hiroshy, vice-presidente do Clube dos Poetas Estancianos e presidente da Academia Nacional da Poesia Brasileira. A música chorou a perda do mestre através dos acordes de Fabinho do Acordeon, com a presença marcante de Fábio D’Estância e de vários músicos da centenária Lira Carlos Gomes.
O respeito ao legado de Seu Enoque uniu diferentes setores da sociedade. Estiveram presentes personalidades da comunicação, como o superintendente da Rádio Mar Azul, Everaldo Carvalho e o radialista Luiz Carlos Dussantus. No âmbito político, registraram o seu respeito os ex-prefeitos Carlos Magno e Gilson Andrade, o ex-vereador e radialista Dominguinhos Machado e o vereador Carlos Blinofi, além de diversas outras autoridades locais.
Seu Enoque deixa uma lacuna impreenchível na cidade “Berço da Cultura”, mas a sua jornada foi vitoriosa. Ele cumpriu a missão de ser a voz, o verso e a chama de Estância.
Neste momento de profunda dor e saudade, expresso meus mais sinceros sentimentos de solidariedade. Que Deus, em sua infinita misericórdia, conceda o conforto necessário à Dona Magnólia, viúva de Seu Enoque, aos seus filhos Newiton e Nailton, e a todos os demais familiares, amigos e admiradores que hoje choram a perda deste grande mestre popular.
Seu Enoque dos Santos partiu, mas o batuque das batucadas, os versos dos poetas e as luzes das espadas juninas de Estância brilharão para sempre com a sua memória.
