Bolsonaro abriu a porteira do governo, mas ‘centrão’ quer mais


Grupos miram verba de emendas. Para analista, futuro da aliança depende do ibope presidencial

Na eleição de 2018, o general de pijama Augusto Heleno, hoje chefe do GSI, o órgão de inteligência da Presidência, certa vez cantarolou: “Se gritar pega ‘centrão’, não fica um meu irmão”. Na época, a essa banda da velha política que corre ao ouvir uma sirene estava na canoa do presidenciável Geraldo Alckmin, do PSDB. Águas passadas.

“Tem que ir em cada um desses partidos, principalmente aqueles de centro, independente da conotação pejorativa aí de ‘centrão’ ou não, e trazê-los para o campo da direita, de centro-direita, uma coalização de centro-direita”, disse em meados de maio outro general de pijama, Hamilton Mourão, vice-presidente. “Lógico que, nisso aí, cargos e emendas fazem parte da negociação.”

Os cargos já começaram a sair, mas e a grana de emendas parlamentares, obras incluídas no orçamento por congressistas? Um membro do “centrão” diz que ainda não há casamento com Jair Bolsonaro, só noivado, pois o governo reluta distribuir verba para emendas.

Em abril, o governo liberou o recorde de 6,2 bilhões de reais para elas, mas a grana, explica a fonte, foi o pagamento por uma votação de março, sobre orçamento impositivo, não o dote pelo noivado. É preciso abrir mais o cofre.

“É um namoro de conveniência”, afirma o cientista político Antonio Augusto de Queiroz, do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Bolsonaro precisa do “centrão” não para aprovar políticas públicas, mas para se blindar de um impeachment, diz Queiroz, enquanto ao “centrão” interessa usar o orçamento público para tentar ir bem na eleição municipal deste ano.

Para o analista, se acabar o dinheiro federal ou a aprovação a Bolsonaro cair abaixo de 15% (está em 33%), a relação termina. Até lá, estima ele, o governo terá uma base de apoio de 230 deputados, ainda inferior à metade da Câmara (257).

O flerte de Bolsonaro com esse grupo começou em abril e, até aqui, contemplou principalmente o PP de Arthur Lira e Ciro Nogueira, o PTB de Roberto Jefferson, o PL de Valdemar Costa Neto e o PSD de Gilberto Kassab.

O PSD ficou com o Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e agora com o ministério das Comunicações, que foi recriado nesta quarta-feira 10. O novo presidente do ITI é da confiança de Kassab, Carlos Fortner, nomeado em 3 de junho. O ITI é da Casa Civil da Presidência, uma espécie de cartório de assinaturas digitais. Na Funasa, o partido emplacou no fim de maio Giovanne Gomes da Silva, ex-comandante da PM mineira. A Funasa toca ações na área de saneamento e tem 2,3 bilhões de reais este ano.

O PP levou o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e o Departamento Nacional de Obras contra a Seca (Dnocs). No FNDE, foi nomeado presidente, em 1o de junho, Marcelo Lopes da Ponte, chefe de gabinete do senador Ciro Nogueira, líder nacional do PP. O FNDE tem 30 bilhões de reais este ano. No Dnocs, os pepistas puseram Fernando Leão, do Avante, partido com quem eles têm um bloco na Câmara. Leão era do Procon em Pernambuco. Seu novo órgão tem 1 bilhão de reais em 2020.

Dos 30 bilhões do FNDE, 7 bilhões pertencem à diretoria de ações educacionais. Esta diretoria é ocupada desde maio pelo advogado Garigham Amarante Pinto, assessor do líder do PL na Câmara, Wellington Roberto. A grana da diretoria banca livros, transporte e merenda para escolas municipais. É um exemplo do tipo de benefício obtido pelo “centrão” ao ganhar cargos no governo nesse momento.

O fundo compra material didático, negocia com prefeitos e fornecedores. Escolher certa empresa para encomendar livro pode significar, depois, apoio financeiro dela ao partido que emplacou o diretor. Valioso em ano de eleição municipal.

O PL emplacou com o PTB o presidente do Banco do Nordeste, dono de 30 bilhões de reais para investir este ano. Alexandre Borges Cabral assumiu em 2 de junho e caiu no dia seguinte. Saiu após a mídia lembrar seu prontuário, que certamente não era desconhecido do governo. É alvo do Tribunal de Contas da União (TCU) por sua gestão da Casa da Moeda no governo Temer, função exercida por indicação do PTB.

O Republicanos, ex-PRB, indicou o novo secretário Nacional de Mobilidade e Desenvolvimento Regional e Urbano, repartição do Ministério do Desenvolvimento Regional que cuida de obras do metrô. É Tiago Queiroz, nomeado em maio. Ele é réu em uma ação de improbidade administrativa graças à sua passagem pelo ministério da Saúde no governo Temer. Dura no cargo? Sai ileso?

O “centrão” é sempre promessa de escândalos à vista.

Fonte: CartaCapital

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