Divididos por dentro: a guerra na extrema direita sergipana que favorece Fábio Mitidieri — mas nem tanto
“Não há aliados na arte de governar. Apenas interesses comuns.”
O cenário político sergipano rumo às eleições de 2026 tem se configurado como um verdadeiro campo de disputas internas — especialmente no interior da extrema direita bolsonarista. Em meio a esse turbilhão de conflitos, o governador Fábio Mitidieri, situado no espectro da centro-direita, surge não como um ator inerte, mas como um estrategista silencioso, que observa — e, ao que tudo indica, se beneficia — das fissuras cada vez mais profundas entre seus adversários.
A crise ganhou novos contornos após declarações do senador Flávio Bolsonaro, que apontou o vice-prefeito de Aracaju, Ricardo Marques, como possível candidato ao governo de Sergipe pelo PL. A articulação, atribuída ao deputado federal Rodrigo Valadares, sinaliza uma reorganização de forças dentro da extrema direita local. Longe de pacificar o campo, o movimento desencadeou uma reação em cadeia, trazendo à tona disputas que já existiam, mas permaneciam latentes.
De um lado, o ex-prefeito Valmir de Francisquinho se consolida como um dos principais nomes do bolsonarismo sergipano, reivindicando coerência ideológica e fidelidade ao projeto político do ex-presidente Jair Bolsonaro. Do outro, Ricardo Marques emerge como alternativa eleitoral viável, ainda que sob críticas de oportunismo e acusações de traição. O embate entre ambos expõe mais do que divergências táticas: revela uma disputa simbólica por legitimidade dentro da base conservadora mais radical.
A tensão se intensifica com a entrada de novos atores. A prefeita de Aracaju, Emília Corrêa, adotou medidas administrativas que culminaram no rompimento político com seu vice e atingiram diretamente aliados de Rodrigo Valadares. As exonerações, embora formalmente administrativas, carregam forte conteúdo político e evidenciam que o conflito deixou de ser subterrâneo: tornou-se público, institucional e irreversível no curto prazo.
Diante do acirramento, setores mais pragmáticos da direita — menos ideológicos e mais orientados por viabilidade eleitoral — passaram a defender uma saída conciliatória: a formação de uma ampla coalizão que unifique o campo bolsonarista em Sergipe. Nos bastidores, cogita-se uma chapa com Valmir de Francisquinho ao governo, Ricardo Marques como vice, e Rodrigo Valadares ao lado de Eduardo Amorim na disputa pelo Senado. A proposta busca evitar a fragmentação eleitoral e construir um palanque competitivo.
No entanto, essa engenharia política esbarra em um obstáculo clássico da política real: a confiança. Fontes ligadas a Valmir de Francisquinho indicam que o ex-prefeito teria rompido completamente com Ricardo Marques. O desgaste, iniciado ainda em agendas em Brasília, evoluiu para um conflito aberto, marcado por desconfiança pessoal e divergência sobre protagonismo político.
Como consequência, Valmir de Francisquinho já avalia rotas alternativas. Entre elas, ganha força a possibilidade de uma chapa com Priscilla Felizola como vice, movimento que reforça a percepção de que o racha pode se tornar definitivo.
Os reflexos dessa fragmentação já aparecem nos números. Levantamento recente do Instituto França aponta Fábio Mitidieri com vantagem significativa. No cenário estimulado, lidera com 39,56% das intenções de voto. Nos confrontos diretos, mantém a dianteira frente a Valmir de Francisquinho e amplia ainda mais contra Ricardo Marques.
No entanto, há um elemento novo que começa a redesenhar esse tabuleiro — e que pode reduzir o conforto do atual governador: a possibilidade concreta de uma candidatura do PSOL ao Governo de Sergipe.
Embora ainda em fase de articulação, a entrada de um nome competitivo pelo PSOL tem potencial para alterar significativamente a dinâmica eleitoral. Isso porque rompe a lógica binária que hoje favorece Fábio Mitidieri: de um lado, uma extrema direita fragmentada; de outro, um centro consolidado. Com o PSOL no jogo, abre-se uma terceira via à esquerda, capaz de mobilizar setores progressistas, juventudes e eleitores descontentes tanto com o bolsonarismo quanto com a moderação governista.
Mais do que dividir votos, uma candidatura do PSOL tende a tensionar o debate público, introduzindo pautas sociais, críticas estruturais e um discurso mais combativo — elementos que podem deslocar o eixo da eleição e obrigar o governador a sair da zona de conforto político.
Nesse sentido, o cenário que antes parecia favorável ao incumbente passa a exigir maior capacidade de articulação e reposicionamento. Afinal, se por um lado a fragmentação da extrema direita segue beneficiando o governo, por outro, o surgimento de um polo alternativo à esquerda pode reequilibrar forças e tornar a disputa mais imprevisível.
O que se desenha, portanto, não é apenas uma eleição marcada por divisões internas na direita, mas um possível redesenho mais amplo do espectro político sergipano. E, nesse novo arranjo, a vantagem de Fábio Mitidieri deixa de ser uma condição estável e passa a depender, cada vez mais, da sua capacidade de reagir a um cenário em transformação.
Porque, na política, o maior risco não é o conflito visível —
é o adversário que ainda está se formando.

