Não serei objeção a PSD na base de Lula, diz Fábio Mitidieri


Fábio Mitidieri (PSD) cita sequelas de disputa com PT no estado, mas defende que presidente eleito pacifique país

Fábio Mitidieri (PSD), 45, governador eleito de Sergipe – Divulgação

O governador eleito de Sergipe, Fábio Mitidieri (PSD), diz, em entrevista à Folha, que não fará objeção caso o partido decida fazer parte da base aliada do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

“Conversei com o presidente [do partido] Gilberto Kassab e disse a ele que não seríamos objeção caso o partido deseje integrar a base do presidente Lula”, afirma.

Em entrevista à FolhaKassab elencou condições para o partido aderir ao governo Lula, como participação em cargos no governo e apoio à reeleição de Rodrigo Pacheco (MG) à Presidência do Senado.

Para Mitidieri, Lula deve pacificar o país e priorizar os programas sociais na nova gestão. “O foco do PT sempre foi o social, precisa voltar a investir em programas como Mais Médicos, Minha Casa, Minha Vida, Luz para Todos, que deram certo e movimentaram a economia”, afirma.

O futuro governador sergipano também avalia que falas de Jair Bolsonaro (PL) prejudicaram o presidente na busca pela reeleição. “O problema dele foi a língua, falava demais e se comprometia muito, mais até do que as ações do seu próprio governo.

O PSD deve participar do governo Lula? Conversei com o presidente [do partido] Gilberto Kassab e disse a ele que não seríamos objeção caso o partido deseje integrar a base do presidente Lula. Somos um partido de centro, amplo e temos vários aliados que são a favor [e outros] que são contra.

Qual o principal desafio do novo governo? Tem que pacificar o país. Se a política vai bem, a economia tem uma tendência de caminhar bem. Lula precisa mostrar que vai ser um governo para todos e buscar corrigir erros do passado. Na economia, temos que buscar fazer com que o país volte a ter uma relação melhor com outros países. O foco do PT sempre foi o social, precisa voltar a investir em programas como Mais Médicos, Minha Casa, Minha Vida, Luz para Todos, que deram certo e movimentaram a economia.

Qual a avaliação geral que o sr. faz do governo BolsonaroExiste um Bolsonaro e o governo Bolsonaro. Bolsonaro não toma vacina [contra a Covid] e faz campanha contra a vacina, o governo Bolsonaro comprou vacinas e distribuiu. O problema dele foi a língua, falava demais e se comprometia muito, mais até do que as ações do seu próprio governo. Em algumas áreas, ele fez reformas importantes como a da Previdência, mas, na área social, pecou. Mesmo tendo feito o Auxílio Brasil de R$ 600, ele não conseguiu capitalizar. Essa marca [social] ainda é muito forte dos governos do PT.

Qual tratamento o sr. espera do governo Lula depois dos conflitos que houve entre governadores do Nordeste principalmente e Bolsonaro? Os governadores do Nordeste tiveram uma relação muito difícil com o governo Bolsonaro, até por ser o Nordeste a grande base eleitoral do governo Lula. Espero que, por isso mesmo, o Nordeste receba uma atenção diferenciada. A região foi importante para a vitória dele. A gente espera ter esse reconhecimento na forma de ações.

A demora do presidente Bolsonaro para se pronunciar sobre o resultado estimulou as manifestações golpistas e os bloqueios nas rodovias? Com certeza não ajudou. O movimento mais democrático é reconhecer o resultado das eleições, parabenizar o adversário e desejar sucesso. A demora inflama esse percentual de público de militantes mais radicais, não são todos os bolsonaristas que são assim. Importante que ele já reconheceu e que já está sendo feita a transição.

No segundo turno, o sr. enfrentou e venceu Rogério Carvalho, do PT, em disputa acirrada. Esse embate que aconteceu pode gerar alguma animosidade na relação com o governo Lula? No primeiro turno, votei também no presidente Lula e meu adversário entrou com uma ação na Justiça para que eu fosse proibido de pedir votos para Lula. Recebi multa e fui alvo de busca e apreensão. Tenho um pouco de amor próprio e daí em diante não pedi mais votos, fiquei neutro. Fui muito acolhido por eleitores de Bolsonaro no segundo turno e sou grato. Quem governa, governa para todos. Tive votos dos dois lados, foi uma vitória plural. [Dizia que] em janeiro, nem Lula nem Bolsonaro seria governador de Sergipe.

O sr. votou em quem no segundo turno? Fiquei neutro. Não declarei voto em respeito a esse eleitor que me abraçou e por conta do outro lado, que praticamente me expulsou e não queria o meu voto [para Lula].

Passado o segundo turno da eleição, o sr. não quer revelar o seu voto? Não. Não precisa.

Tem espaço para uma recomposição com o PT em Sergipe? Vocês foram aliados nas eleições de 2018. Nesse momento, é muito difícil. Foi uma campanha dura, em que muita coisa aconteceu e deixou algumas sequelas que o tempo é que vai colocando tudo no lugar.

Como avalia a união de Rogério Carvalho, do PT, com Valmir de Francisquinho (PL), que é bolsonarista, no segundo turno contra o seu palanque? Acho que essa aliança não foi bem aceita pela sociedade sergipana. O primeiro turno foi atípico, Valmir estava inelegível, mas dizia à população que era candidato e que reverteria o processo [na Justiça Eleitoral]. Mas acabou o primeiro turno e o povo viu que aquilo era um estelionato eleitoral. No segundo turno, houve a união deles e aquele discurso de que era perseguição se acabou.

O presidente eleito Lula (PT) disse que, em janeiro, vai reunir os governadores e pedir que citem três projetos prioritários nos estados para tentar viabilizar uma parceria com o governo federal. Quais serão os seus? Tenho discutido com a equipe de transição. Na área de desenvolvimento econômico, queremos fazer um novo Porto de Sergipe, para área profunda. Sem a ajuda do governo federal, fica difícil o estado realizar sozinho. Além disso, esperamos a finalização do Canal do Xingó para o sertão, e a Adutora do Leite, no sertão do estado, porque precisamos trazer água bruta para dobrar a produção.

A atual regra com limite para a cobrança do ICMS sobre os combustíveis, sancionada por Bolsonaro, vale até o final do ano. O sr. defende que essa regra seja mantida a partir de janeiro? Isso gerou uma frustração de receitas [para os estados], o que dificulta ainda mais a situação para 2023. As compensações não foram feitas da maneira devida para repor as perdas aos estados. Tem que ser revisto porque não podemos comprometer a saúde, a educação, os salários dos servidores. [Se for para manter], tem que haver uma compensação.

Qual o legado que o governo Fábio Mitidieri quer deixar para Sergipe? Desenvolvimento econômico através da geração de emprego. Isso que dá dignidade às pessoas.


RAIO-X

Fábio Cruz Mitidieri, 45

Governador eleito de Sergipe, está no segundo mandato seguido como deputado federal. Antes, foi vereador de Aracaju, capital do estado. É formado em administração pela Universidade Tiradentes. Também exerceu os cargos de secretário de Esportes de Aracaju e secretário estadual do Trabalho.

51,7%
foi o percentual de votos válidos obtidos no 2º turno, contra 48,3% de Rogério Carvalho (PT)

 

Fonte e texto: Folha de São Paulo

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