O amigo Vladimir; Autocrata russo é espécie de modelo avançado do que Bolsonaro gostaria de ser


 

Os presidentes do Brasil, Jair Bolsonaro, e da Rússia, Vladimir Putin, em Moscou – Alan Santos/PR

Esperar do presidente Jair Bolsonaro (PL) coerência na relação com outras nações e compreensão dos temas geopolíticos equivale a acreditar em milagres. A superficialidade, os rompantes irrefletidos, as contradições e a ausência de linhas de continuidade prevalecem.

Não tem sido diferente no caso da invasão militar da Ucrânia pela Rússia. Integridade territorial, autodeterminação dos povos e não intervenção em assuntos domésticos de outros países perfilam-se como princípios da Constituição e da tradição diplomática brasileira.

As manifestações do Itamaraty, embora de início estranhas a essa linhagem, aos poucos convergem para ela —como se viu nesta quarta (2), quando a Assembleia-Geral da ONU aprovou resolução que condena a agressão da Rússia.

Três dias depois do debate sobre a proposta, vetada por Moscou, a representação brasileira voltou a repudiar a invasão. Criticou também potências ocidentais por “sanções seletivas” e pelo envio de armas ao governo ucraniano, sob o argumento de que essas iniciativas apenas prolongariam a crise.

Pode-se questionar essa segunda parte da crítica, em especial no caso de uma ofensiva tão brutal e imotivada como a deslanchada pelo governo russo, mas ela não destoa da tradição pacifista e multilateralista da diplomacia brasileira.

O que contrasta, sem dúvida, com o passado e o presente do Itamaraty são as atitudes do presidente Bolsonaro sobre a crise. Ele chegou a interromper mais um longo período de ócio no litoral para fazer comentários confusos sobre como pretende lidar com a Rússia de seu mais novo amigo, Vladimir Putin.

Explicou que adotaria a “neutralidade” com o autocrata, com quem se encontrou há alguns dias durante um passeio pouco produtivo pelo Kremlin. O Brasil, afirmou, não pode ficar sem os fertilizantes importados da nação eslava.

Afora o fato de o fim da violação russa ser o melhor caminho para assegurar o fornecimento de insumos agrícolas ao Brasil, as falas de Bolsonaro também se chocam com o que o seu próprio Ministério das Relações Exteriores está fazendo.

A neutralidade a que o presidente brasileiro se refere mais parece um gesto pessoal de simpatia com o líder russo. Putin, afinal, é uma espécie de modelo avançado do que Bolsonaro gostaria de ser, mas não consegue por causa das instituições da democracia.

Prender adversários, reprimir críticos, atropelar órgãos de controle, calar veículos de imprensa. Na Rússia há; no Brasil, não.

Editorial Folha de São Paulo

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