‘Somos a única oposição do Estado’, diz Alessandro Vieira
O Senador Alessandro Vieira mantém o seu nome no páreo, mesmo com a federação entre o seu partido, o Cidadania, e o PSDB de João Dória

De olho na corrida presidencial, o Senador Alessandro Vieira mantém o seu nome no páreo, mesmo com a federação entre o seu partido, o Cidadania, e o PSDB de João Dória. Alessandro diz estar empatado com dória nas pesquisas, mas possui menor rejeição. Nesta entrevista ao Jornal da Cidade, Alessandro fala sobre o seu projeto que visa criar uma política educacional emergencial para o período pós-covid, destacando que em Sergipe 93 mil estudantes ficaram sem aula em 2020. Sobre a disputa no cenário estadual, ele afirmou que seu grupo é a única oposição no estado, mas questionado sobre restrições a alianças que possam unir a oposição ao governador Belivaldo ele disse que não haverá, em seu palanque, candidatos ficha-suja. Leia a seguir a entrevista exclusiva.
JORNAL DA CIDADE – O Senado aprovou um projeto de sua autoria que cria uma Política Educacional Emergencial no pós–Covid. O senhor acredita que a pandemia gerou prejuízos aos estudantes brasileiros? Isso pode ser verificado de alguma forma?
ALESSANDRO VIEIRA – Nosso projeto que institui a Política Educacional Emergencial (Pede) é extremamente oportuno e necessário. Algumas pesquisas indicam que a pandemia gerou prejuízos para os nossos estudantes. Uma delas foi realizada pelo Instituto Datafolha. Segundo a pesquisa, 70% dos estudantes da rede pública precisarão de apoio pedagógico em matemática e português e 28% das famílias sugerem que as escolas priorizem programas de reforço e recuperação da aprendizagem. Considerando as diferentes fases de estudos, a pesquisa indica que 69% das crianças em processo de alfabetização foram prejudicadas e que 58% dos adolescentes tenham problemas emocionais por conta do isolamento. Quando fazemos um recorte socioeconômico, os dados são ainda mais graves: 80% dos pais apontaram que seus filhos tiveram dificuldades de estudar em casa. São famílias que tiveram a renda reduzida e que os pais não conseguiam acompanhar com os filhos os conteúdos das aulas e a execução das atividades.
JC – Em que consiste o seu projeto, que visa atacar este problema? Qual o impacto dele para os alunos em situação de maior vulnerabilidade econômica, como o senhor cita no projeto?
AV – Minha proposta é que tenhamos uma política estruturada, que não apenas garanta o reforço escolar nas disciplinas de português e matemática, mas que também que faça uma busca ativa destes alunos, identificando as dificuldades e dando o encaminhamento adequado, na escola ou através da assistência social. Temos diversas realidades nas escolas, alguns alunos terão maior impacto na saúde mental, outros nas necessidades básicas de alimento, por exemplo, e teremos aqueles que vão precisar reaprender a assistir uma aula presencial, sem as interferências tecnológicas e a divisão da atenção. No caso dos alunos com maior vulnerabilidade econômica, o projeto propõe um acolhimento familiar para que seja possível compreender como a pandemia afetou o núcleo familiar do estudante e caso necessário faça o encaminhamento necessário para os órgãos da gestão pública que possam dar o suporte adequado. 47% dos pais entrevistados na pesquisa que citei anteriormente tiveram redução na renda durante a pandemia e 32% dos estudantes podem não retornar às aulas. O fato é que não podemos deixar que esta geração seja prejudicada por tamanha defasagem educacional nem que desistam de estudar.
JC – Qual tem sido o impacto da pandemia de Covid-19 nas redes municipais e estadual em Sergipe? Vários municípios ainda não retornaram às aulas presenciais. Há problemas como falta de internet para acompanhar aulas remotas e falta de alimentação (merenda escolar). O senhor tem acompanhado essas questões?
AV – Acompanhei durante toda a pandemia e sigo acompanhando. Durante a pandemia a maior dificuldade foi com a infraestrutura para garantir o acesso à aula online de qualidade. Pais e professores que não possuem internet de qualidade nem equipamentos adequados para esta finalidade. Um estudo do Unicef e do Cenpec realizado em 2021 apontou que 93 mil estudantes sergipanos entre seis e 17 anos, o que representa 21,4% da população desta faixa etária, ficaram sem acesso às aulas durante 2020 e os pais apontaram exatamente a falta de acesso à internet como principal causa. Apresentei o PL da Conectividade para resolver estes dois problemas, garantindo o acesso à internet e a doação dos equipamentos para alunos e professores. O projeto foi aprovado na Câmara e Senado e vetado pelo presidente Jair Bolsonaro. O veto foi derrubado, mas apenas no final de 2021 foi publicada a regulamentação e a execução vem ocorrendo lentamente. A falta de alimentação foi resolvida pelo Legislativo quando autorizamos os municípios a transformarem a verba da merenda e do transporte escolar em cestas básicas e efetuar a doação regular para as famílias dos alunos. Alguns municípios doaram as cestas e outros criaram cartões alimentação que foram distribuídos para as famílias. Contudo, o maior problema temos neste retorno às aulas. Parte das redes municipais não tem recursos para fazer a adequação de infraestrutura necessária para garantir a segurança sanitária. Além disso, não temos estruturada uma avaliação inicial dos alunos para entender como estão chegando e quais as necessidades de reforço. Também não temos as equipes multidisciplinares necessárias para lidar com os desafios relacionados à saúde mental e dificuldades de aprendizagem dos alunos. Existe muito a ser feito.
JC – O Cidadania aprovou uma federação com o PSDB. Qual a sua avaliação final sobre isso, já que o senhor vinha fazendo alguns questionamentos sobre essa reunião das siglas?
AV – Precisamos reduzir o número de partidos no país, contudo qualquer mudança precisa ser feita com cuidado. Um partido é composto por diretórios municipais e estaduais. É na base que a vida partidária acontece. Essa não é uma decisão que pode ser feita de cima para baixo. Tem que existir diálogo, entender o impacto para cada localidade e estabelecer regras claras sobre o funcionamento da federação. Este é um casamento de quatro anos, envolvendo três ciclos eleitorais. É preciso analisar com cautela e estratégia para não resultar no fim do partido.
JC – O PSDB possui um presidenciável, eleito em prévias partidárias. O senhor mantém a sua candidatura a presidente? Tem o apoio do seu partido? Aceitaria ser vice de João Dória, na disputa presidencial?
AV – Minha pré-candidatura está mantida. Essa foi uma decisão tomada por unanimidade antes de votarmos a federação. Temos ainda um caminho pela frente. O PSDB irá votar a aprovação da federação com o Cidadania, depois um estatuto será redigido e os dois diretórios nacionais precisam aprovar os textos. Em seguida, será estabelecida uma comissão para definir as regras para escolha do representante da federação no pleito federal. Hoje eu e o governador João Dória estamos tecnicamente empatados, sendo que eu tenho uma rejeição muito menor e consequentemente maior potencial de crescimento. Mas essa é uma decisão coletiva.
JC – Em nome de qual projeto o senhor mantém a sua candidatura presidencial? Não seria um voo muito alto para um senador eleito pelo menor Estado do Brasil – ou seja, com pouca densidade de votos no cenário nacional?
AV – A realidade é que ninguém está dialogando sobre os problemas que estamos enfrentando, muito menos suas soluções. Não existe um projeto de país sendo apresentado. A disputa polarizada é rasa, restrita a egos e ideologias. Alguém precisa estar disposto a colocar o país em debate. Falar das altas taxas de desemprego, do desafio de controlar a inflação, da necessidade de investir no atraso de décadas na nossa educação e de investir em inovação e desenvolvimento tecnológico para produzir alimento sem desmatar. A minha pré- -candidatura põe em foco o que realmente importa e chama a população para debater soluções concretas.
JC – Pesquisas indicam uma polarização cada vez maior entre Lula e Bolsonaro. Como fica a terceira via neste cenário, já que ela ainda não conseguiu se unir em torno de projetos ou candidaturas?
AV – Ainda temos cerca de 25% da população sem definir em quem vai votar. A campanha ainda não começou. Temos, portanto, a oportunidade de levar um candidato para o segundo turno e sair da polarização. Temos algumas possibilidades para a formatação de uma coligação ampla de partidos que viabilize esta candidatura. Sigo dialogando com todos os pré-candidatos. Não é hora de sustentar projetos pessoais para alimentar o ego. O Brasil demanda esta composição. Não é um processo fácil, mas também não é impossível.
JC – O senhor declarou que num possível segundo turno entre Lula e Bolsonaro, escolheria Lula. Ainda mantém essa visão?
AV – Não viajarei para Paris, podem ter certeza. Hoje meu foco é trabalhar para que nem eu, nem o povo brasileiro que almeja uma alternativa à polarização tenha que fazer esta escolha.
JC – Um dos grandes temas nacionais é a privatização. Qual a sua visão sobre isso? Quais empresas o senhor entregaria à iniciativa privada e quais setores manteria sob o manto governamental?
AV – A privatização é válida quando comprovadamente a mudança permitirá melhorias na prestação de serviço e maior eficiência na gestão. Contudo, setores produtivos estratégicos devem ser preservados. Este é o caso da Petrobras, por exemplo.
JC – Pesquisa CNT divulgada essa semana indica que 75% dos entrevistados apontam a saúde como o principal problema do país, seguido pela Educação (50%). O senhor poderia apontar qual seria o principal problema de cada um deles, e apontar uma possível solução?
AV – O acesso à saúde é o principal problema da área. A fila para realização de procedimentos básicos em algumas localidades é imensa. Aqui em Sergipe temos procedimentos que demoram mais de 360 dias para serem realizados. É preciso ter como meta zerar as filas. Hoje temos a tecnologia a nosso favor para otimizar processos. A realização de PPPs também tem sido eficiente em algumas localidades. No caso da Educação, a questão não é o acesso, mas a permanência e a qualidade do ensino. Vivemos no Século XXI com metodologias de ensino do Século XX. Nossos professores precisam ser valorizados e ter acesso à formação, à qualificação. Falta investimento na modernização da infraestrutura e em atividades que proporcionem a retenção dos alunos em sala de aula. A solução destes e de outros problemas passa também pela revisão do orçamento público. Hoje temos prioridades invertidas. Muito recurso para áreas com baixo impacto para a resolução de problemas cruciais para a nossa sociedade. O orçamento precisa estar conectado com o planejamento estratégico do país, com metas claras de execução, transparência e monitoramento constante, inclusive pela sociedade civil.
JC – Como estão as articulações políticas do seu partido em Sergipe? Quem são os nomes para o Governo do Estado e Senado? Já há definições?
AV – Somos a única oposição do Estado e hoje temos parlamentares com alta produtividade e entregas relevantes para o Estado. Este é um grupo que está trabalhando e rodando o Estado para entender as demandas da sociedade, dialogar com coletivos, organizações e lideranças públicas. A nossa articulação envolve muito trabalho e dedicação, sem “toma-lá-dá-cá”. Nos unimos em torno de um projeto para Sergipe e quem está conosco entende que este é um grupo diferente. Que dialoga constrói junto, quem fiscaliza cobra e é altamente transparente. Quanto aos nomes para o pleito de 2022, ainda é cedo para definições. Ainda temos muito diálogo e construção pela frente. O que podem ter certeza é de que teremos representantes e chapas competitivas.
JC – O senhor faz restrições a algum partido/nome/setor da oposição em Sergipe? Acha possível que os nomes da oposição se unam na eleição deste ano?
AV – Minha restrição é objetiva: não teremos no nosso palanque candidatos ficha- -suja. Superado isso, quem estiver engajado no projeto de mudança para melhor a vida dos sergipanos pode integrar nossa caminhada.
JC – O senhor descarta por completo disputar o Governo de Sergipe?
AV – Sergipe me acolheu e aqui formei minha família, é aqui que meus filhos crescem. Devo muito a este Estado e às mais de 470 mil pessoas que confiaram em mim para representá-las. Existindo uma demanda do povo sergipano, estarei sempre à disposição. Assumi e vou cumprir o compromisso de apresentar alternativas concretas para romper a polarização na esfera nacional e também para evitar a permanência do mesmo grupo incompetente que está no poder há décadas em Sergipe.
JC – No período eleitoral, certamente o senhor será questionado sobre seu trabalho na CPI da Pandemia. A CPI acabou em pizza? Detectou corrupção no governo Bolsonaro?
AV – A CPI acelerou a vacinação da população brasileira e evitou centenas de milhares de mortes. Esse é o maior impacto de uma Comissão Parlamentar de Inquérito histórica. Pela primeira vez realizada enquanto o problema ainda existe e com ampla participação popular. A CPI reduziu a desinformação, propagou a verdade, a ciência, dados e fatos que deram segurança à população para que fosse se vacinar mesmo quando o próprio governo fazia campanha anti-vacina. Quanto aos crimes, seguem seu curso de investigação. Existem indícios de corrupção que demandam maior investigação, mas são evidências que apontam para um esquema pré-existente no Ministério da Saúde. No meu relatório apontei alguns crimes cometidos pelo presidente Jair Bolsonaro e alguns dos seus ministros como Braga Netto e Marcelo Queiroga e o ex-ministro Eduardo Pazuello. Ressalto que também produzi um relatório sobre o enfrentamento da pandemia em Sergipe e as investigações que estão em curso nos órgãos federais, inclusive relacionadas ao Consórcio Nordeste. Estes processos também precisam seguir seu curso e todos os envolvidos devem ser devidamente punidos.
|Por Max Augusto
||Foto: Divulgação
Fonte: Jornal da Cidade
